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Da mudança climática à mudança política: Solidariedade e direitos pelo Rio Grande do Sul

Nossas cidades não estão preparadas para lidar com os efeitos da emergência climática, por isso precisamos falar de adaptação climática. 

O ISER manifesta solidariedade aos atingidos pela crise climática no Rio Grande do Sul e tem atuado para ampliar o apoio às pessoas necessitadas de ajuda. Diante desse caos que assola comunidades inteiras, expressamos nossa compaixão às famílias que perderam seus entes queridos, seus lares e sua segurança. É doloroso relembrar que o que aconteceu é resultado não apenas de forças naturais, mas da negligência e omissão das autoridades competentes. Esta catástrofe ambiental nos recorda, de forma dolorosa, da urgência em adotar medidas efetivas de preservação e gestão responsável do meio ambiente e clima.

“O desastre não é natural, é político. É construído no Estado que desrespeita a legislação ambiental. O desastre é parte consciente do projeto político de governos negacionistas ou incapazes de se preocupar com a vida das pessoas e das florestas, afinal elas são indissociáveis.” – Mariana Belmont

O que é adaptação climática?

Diz respeito a um conjunto de intervenções planejadas, em diferentes áreas, para que os territórios possam lidar melhor com as consequências da emergência climática, evitando perdas materiais, de vidas e priorizando o bem estar da população.
A tragédia no Rio Grande do Sul é mais um exemplo, violento e monumental, do que tem acontecido e do muito que está por vir. Por isso, é necessário uma corajosa mudança política, para outra economia e modelo de sociedade, se quisermos algum futuro ou adiar o fim do mundo, como lembra Ailton Krenak.

Crise climática: um projeto político e econômico

Eventos climáticos extremos têm se tornado cada vez mais comuns, ao mesmo tempo em que parlamentares, governantes e outros atores políticos atacam medidas de preservação ambiental, precarizam serviços públicos de defesa civil e vendem nossas cidades e recursos naturais aos empreendimentos privados em prol de lucros ainda maiores.

A catástrofe ambiental que agora assola o Rio Grande do Sul é um exemplo de como os interesses econômicos predatórios e neoliberais estão acima dos interesses da coletividade e do cuidado com a natureza. Neste momento de dor e perda, a sociedade civil se ergue, mais uma vez, para levar cuidados básicos, comida, água e amparo àqueles que foram afetados por essa calamidade.

É preciso lembrar que tragédias anunciadas se concretizaram pelo descaso e que é urgente uma mudança radical na resposta que queremos e precisamos dar às crises climáticas e humanitárias daqui em diante. O que acontece hoje no Sul é fruto de um negacionismo científico aliado a uma má gestão pública que ignora alertas, evita planos de prevenção e flexibiliza legislações ambientais.

“Informações técnicas, dados e alertas dos cientistas estão disponíveis há bastante tempo. Informação não falta. O que falta são políticas públicas que possam minimizar os impactos desses eventos para a população porque eles continuarão a ocorrer. A mudança climática é uma realidade, não temos mais como evitar os eventos extremos.” – Suely Araújo

Como ajudar se não estou no Rio Grande do Sul?
Cozinha solidária do MTST (RS)
Pix: enchentes@apoia.se
Articulação dos Povos Indígenas da Região Sul (ArpinSul)
Pix: 00.479.105/0005-07
Central Única das Favelas (CUFA)
Pix: doacoes@cufa.org.br

Você também pode enviar itens nas agências de Correios de São Paulo, Paraná, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Santa Catarina, Bahia, Pernambuco e Distrito Federal.

Itens para doação: Água potável (prioritário), alimentos de cesta básica, material de higiene pessoal, material de limpeza seco, roupas de cama e de banho e ração para pet.

Para saber mais sobre o assunto:
É ou não é? O que é verdade (e o que não é) sobre as enchentes do Rio Grande do Sul. Greenpeace
Chuva no Sul, fogo no Norte: governo precisa agir no novo normal. Observatório do Clima.
‘NÃO TEMOS MAIS COMO EVITAR OS EVENTOS EXTREMOS’, DIZ COORDENADORA DO OBSERVATÓRIO DO CLIMA. The Intercept Brasil.
O desastre não é natural, é político. Geledes.
O que é adaptação? Glossário Confluência. Associação de Pesquisa Iyaleta.
Nota Técnica Iyaleta Nº 02 – Adaptação: desafios para transparência na governança climática no Brasil
Nota Técnica Iyaleta Nº 01 – Governança de desastres, trade-off e adaptação Norte e Nordeste do Brasil
Sumário Estratégias para Planos Nacionais de Adaptação: um caso Brasil

Rumo à COP30: Fé no clima realiza encontro com a Rede de Juventudes

Na última segunda-feira (25/03), a Iniciativa Fé no Clima promoveu um encontro online com a Rede de Juventudes FnC. Um dos motivos do encontro foi à atualização acerca dos próximos passos da iniciativa para 2024.

Com a presença de jovens de todo o Brasil, o Fé no Clima anunciou a abertura das inscrições para a 1° turma do Boto Fé no Clima: adaptação climática e a previsão da realização de outras duas formações ainda este ano: o Boto Fé no Clima: juventudes e ação climática e o Boto Fé no Clima: preparação à COP29.

No calendário de atividades da Iniciativa, estão a incidência em dois grandes eventos da agenda de Clima: a reunião do G20, no final deste ano e a COP30, em 2025. Com inspiração na grande “Vigília pela Terra”, promovida pelo ISER durante a Rio-92, a Iniciativa aproveitou o encontro para reforçar o convite à participação da Rede na construção de uma Nova Grande Vigília pela Terra, no ano que vem, em Belém, durante a COP 30. Além disso, o Fé no Clima também tem costurado junto a sua rede de lideranças e organizações parceiras a realização de vigílias descentralizadas em preparação à vigília principal.

Dentre as falas dos presentes foi destacada a importância da manutenção da realização COP30 em Belém-PA, diante das especulações que têm sido divulgadas pela mídia a respeito de uma possível mudança parcial ou total na capital que abrigará a conferência. Além disso, foi afirmada a necessidade de novos encontros da Rede de Juventudes para construção de mobilização constante rumo à COP30

Por Sharah Luciano, assistente de projetos da Iniciativa Fé no Clima

De norte a sul – Extremos climáticos atingem milhares de pessoas no Brasil e no mundo

O ano de 2023 está sendo marcado por eventos climáticos extremos, com recordes históricos nos registros que a ciência já conseguiu detectar. 

O Serviço de Mudança Climática Copernicus (C3S), da União Europeia, informou que a temperatura média global de julho de 2023 foi de 16,95 °C, a maior observada em qualquer mês desde o início de sua medição em 1940. No caso do Brasil, a temperatura média em julho foi de 22,97 °C, o mês de julho mais quente registrado no Brasil desde 1961 pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). 

Cada meio grau (0,5C°) a mais na temperatura média do planeta corresponde a uma série de mudanças na intensidade e frequências dos eventos climáticos, como ondas de calor e de episódios de seca ou chuvas exacerbadas. 

A emissão de gases de efeito estufa produzida pela queima de combustíveis fósseis é a principal causa para esse aquecimento do planeta, seja nos oceanos ou na superfície terrestre. Esses episódios de secas e enchentes também são intensificados pelo El Niño, um fenômeno natural que ocorre em períodos de 5 a 7 anos e traz mais chuvas para a região sul e mais secas para a região norte do país. 

Segundo o relatório do INMET publicado em Setembro deste ano, as cheias dos rios da região sul e as secas nos rios da região norte já eram percebidas. 

“Observa-se que a Região Sul, notadamente as bacias dos rios Uruguai e Taquari-Antas, experimentaram ocorrências de inundações, com destaque para os eventos de cheia extraordinários observados na bacia do rio Taquari-Antas, com dezenas de perdas de vida e severos danos às áreas urbanas de vários municípios. Já na Região Norte, observa-se diversos rios à margem direita do rio Amazonas em situação de seca, com contínuo e gradual declínio de níveis d’água e impactos sobre a navegação reportados em pontos dos rios Purus, Juruá e Madeira.”  

No mês de Outubro presenciamos a pior seca do rio Negro no Amazonas que deixou milhares de pessoas sem acesso a recursos básico como a água ou a atividade de pesca, além da biodiversidade perdida como a morte de bôtos e peixes. 

No Rio Grande Sul também tivemos enchentes avassaladoras que tiveram impacto direto na vida das populações indígenas, como foi o caso de famílias do povo Guarani Mbya que tiveram que ser resgatadas pelos bombeiros e deixarem sua comunidade. 

Esse relatório do INMET já apontava para as condições de risco dessas regiões, portanto, o que falta para os governos tomarem medidas efetivas de prevenção aos desastres ambientais? 

No mesmo estudo também indica que no mês de outubro ocorre o planejamento de preparação para o período chuvoso nas regiões Sudeste, Centro-Oeste e Bahia. Como é feito esse planejamento? Como a população pode se preparar sobre como proceder e qual tipo de suporte deve receber dos governos em situações de extrema vulnerabilidade? 

Temos a ciência para nos ajudar a criar estratégias de prevenção, e temos nossa fé, que nos dá força para enfrentar os momentos de maior sofrimento. Além disso, precisamos urgentemente de políticas efetivas e governantes comprometidos para a proteção das populações mais vulneráveis diante desse cenário de emergência climática. Essa ação não é um favor, nem uma bondade, mas um direito.

Julia Rossi – Pesquisadora e redatora da equipe de comunicação do ISER” 

 

Referências 

https://revistapesquisa.fapesp.br/julho-foi-o-mes-mais-quente-da-historia-recente-e-quebrou-recordes-de-temperaturas/#:~:text=Julho%20foi%20o%20m%C3%AAs%20mais,de%20temperaturas%20%3A%20Revista%20Pesquisa%20Fapesp 

https://portal.inmet.gov.br/uploads/notastecnicas/El-Ni%C3%B1o-2023_boletim-setembro.pdf 

https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/seca-no-amazonas-rio-negro-atinge-menor-nivel-em-121-anos-com-apenas-1359-metros/ 

https://www.brasildefato.com.br/2023/09/28/enchente-atinge-aldeia-indigena-no-rio-grande-do-sul-e-comunidade-cobra-melhor-infraestrutura 

TEOLOGIA DO NAUFRÁGIO: A VOZ QUE ECOA NO PORÃO DO NAVIO

 

“Em 15 de fevereiro de 1750, o Espérance naufraga ao largo de Le Vauclin, na Martinica. Desembarcados naquela areia desconhecida, 177 náufragos do Espérance já procuram, através das fendas dos morros ainda verdejantes, as possíveis aberturas de um mundo. (FERDIAND, 2023, p.153).” 

 

É com essa citação que Malcom Ferdiand começa um dos capítulos do seu livro Uma Ecologia Decolonial (2023). Ele encontra na experiência dos corpos negros racializados à partir dá modernidade, um conceito para descrever a colonização europeia e os processos subsequentes dessa estrutura social. “A colonização europeia e as escravidões formam também um imaginário a partir do qual se pode falar de um mundo, de seus habitantes, de suas terras e de seus mares” (FERDINAD, 2023, p.154).

Ferdinad, utiliza o conceito de “Navio Negreiro” para descrever essa relação de subjugação da estrutura colonizadora em relação ao corpo escravizado que é retirado do seu lar, da sua terra, da sua cultura, dos seus laços familiares e da sua experencia religiosa para ser transformado em mera mercadoria, a ser utilizada como mão de obra do império.

 

Como fundamento, o navio negreiro contém os princípios que estruturam o mundo crioulo. Assim como o cofre de madeira no qual os hebreus conservavam as Tábuas da Lei, o navio negreiro encerra em seu seio, em seu convés inferior e em seu porão, os preceitos políticos, sociais e morais que estruturam as relações com a natureza, com a Terra e com o mundo. O principal traço desse fundamento reside numa política do desembarque. O desembarque faz, inicialmente, referência aos quatro séculos ao longo dos quais navios europeus desembarcaram, nas margens caribenhas e americanas, milhões de africanos aprisionados transformados em Negros e escravizados coloniais. (FERDIAND, 2023, p.155-156).

 

Durante mais de 4 séculos, navios europeus traficaram pessoas trazidas a força da África, legitimados pela força do cristianismo europeu com as suas missões de evangelização e catequização de outros povos. A noção de que outros povos, culturas e religiões eram inferiores aos cristãos europeus, sustentou uma noção de que os povos ameríndios e africanos precisavam serem salvos, para que suas almas não fossem condenas ao inferno. Entretanto como o próprio Ferdiand descreve: o verdadeiro inferno era ser acorrentado nos porões do navio negreiro, após ser brutalmente separado de tudo aquilo que dava razão a sua existência: religião, família e cultura. Para esse escravizado, não havia mais nenhuma esperança, a não ser a morte após um naufrago no meio do oceano atlântico. Entretanto, Ferdiand propõe que em alguns casos, a experencia do naufrago não foi a de morte e sim a possibilidade de fuga dessa estrutura colonialista, como o caso do navio Espérance. 

É possível fazer uma relação dessa noção de náufrago como possibilidade de escape, com a história do Apostolo Paulo no livro de Atos no capitulo 27. Nesse relato um dos grandes propagadores do cristianismo primitivo está sendo levado como prisioneiro até o Imperador César. Após inúmeras advertências, orientações e apelos do apostolo, sobre os perigos dessa viagem e as decisões tomadas pelo senhor do navio, acontece um náufrago e milagrosamente ninguém morre. Novamente, temos mais uma história de um náufrago que não termina em morte, mas na possibilidade de salvação a partir da sobrevivência dos prisioneiros do navio. Em ambos os casos, o navio do império romano e o navio negreiro Espérance representavam as estruturas de poder que colonizavam e subjugavam outros corpos, cerceando sua liberdade, territorialidade, cultura e religião. Mas a salvação e a possibilidade de vida, estava no porão dos navios.

Quando se pensa em uma ecologia decolonial e uma tentativa de discutir as questões climáticas a partir da religião, mais especificamente a fé cristã, é preciso pegar emprestado os conceitos e símbolos apresentados por Malcom Ferdinand. A imagem do navio negreiro como símbolo da colonização nos dá margem para imaginar o cristianismo europeu, como um navio que também precisa naufragar. Não é possível pensar uma ecoteologia cristã, a partir das estruturas que sustentaram a colonização e a utilização predatória de recursos naturais, por isso a solução precisar vir de outro lugar. “Os Negros nos porões dos navios negreiros não constituem um povo preexistente à sua insurreição, sobre o qual um dos cativos poderia dizer ao capitão “deixe meu povo ir” (FERDINAD, 2023, p. 163).

A mensagem do evangelho sempre nasce nos porões, nas catacumbas, nas periferias e principalmente, no grito que sai da boca dos corpos que historicamente são acorrentados e negados no seu direito básico de existir. Os negros, as mulheres, a comunidade LGBTI+ e os indígenas são aquelas vozes que ainda ecoam de dentro dos porões e ainda tem condições de pensar um mundo novo, a partir desse desembarque em um mundo novo após o naufrago.

“Os pobres são a verdadeira Igreja, o verdadeiro povo de Deus ainda que a sua presença no sistema religioso possa ser muito fraca. Encontram-se nos grandes santuários de romarias populares. Não se encontram nas igrejas paroquiais e muitas vezes nem sequer nas capelas. Mas Jesus sabe reconhecê-los e os integra no seu corpo como o verdadeiro povo de Deus. Jesus luta pela sua libertação no meio deles”, a afirmação é do Pe. José Comblin em um artigo publicado no livro Fome de Justiça.

Ansiedade climática: Como a emergência climática impacta a saúde mental dos jovens?

O futuro é agora 

Enfrentar a crise climática está longe de ser algo do futuro. Os impactos das catástrofes ambientais causadas pelo aumento da temperatura global já são sentidos em diversas regiões, principalmente pelas populações mais vulneráveis. Sabe-se que as mudanças climáticas decorrentes da ação humana também estão relacionadas ao surgimento de pandemias e doenças que ficam ainda mais transmissíveis em ambientes insalubres ou contaminados. Seja pelas secas ou inundações, os eventos extremos causados pela mudança no clima, a saúde humana pode estar em risco de diferentes formas. 

Além de doenças e perdas materiais que esses eventos podem causar, o sofrimento humano e as consequências para a saúde mental da população mais atingida precisam ser acolhidas e reparadas. Em algumas regiões, como favelas e casas em encostas de morros, os primeiros sinais de chuva já causam medo e angústia.  Lorena Froz, parceira do Fé no Clima, idealizadora do Faveleira e cria de Nova Holanda, uma das dezesseis favelas da Maré no Rio de Janeiro, se refere a esse sentimento quando pensa em como o lugar que ela cresceu será impactado pelas mudanças climáticas:

“Para os moradores de favela, que é o meu caso, entender que a Nova Holanda está abaixo do nível do mar é uma notícia que até hoje eu acho que eu ainda não digeri muito bem. Com as consequências das mudanças climáticas, o local onde eu cresci e passei a maior parte da minha vida, simplesmente pode deixar de existir, isso é algo muito ruim e muito difícil de pensar e de imaginar.” 

Segundo dados do documento “Estratégia de Adaptação às Mudanças Climáticas da Cidade do Rio de Janeiro” de 2016, a favela de Nova Holanda é um dos pá ontos com alto índice de inundações. O relatório “Áreas da cidade passíveis de alagamento pela elevação do nível do mar” de 2008 também já apontava que essa região, por já ter sido bastante aterrada, apresenta mínimas áreas abaixo de 1,50 metro, indicadas como passíveis de alagamento. Mesmo tendo dados que indiquem a necessidade de um plano de adaptação climática, não há um investimento necessário para a implementação de serviços adequados, como saneamento básico. Essa ausência do estado em trazer medidas eficientes para problemas que já estão afetando milhares de pessoas ainda causa mais sentimentos que afetam a saúde mental, como exemplifica Lorena:

“Será que o governo e as autoridades não estão vendo o que está acontecendo? Isso gera muito esse desconforto. A ansiedade de querer essa mudança, de saber que existem meios de você mudar essa situação, mas nada é feito, então ficamos com uma angústia muito forte.”

“Ansiedade Climática”, “ Ecoansiedade” e “luto ecológico” 

Já existem alguns estudos que utilizam termos como “ansiedade climática”, “ecoansiedade”, “luto ecológico” como uma forma de descrever essa exaustão mental que decorre do entendimento da dura realidade frente a crise climática e o sentimento de desesperança. É preciso destacar também que as juventudes são impactadas de forma diferente, já que essa geração se depara com a crise climática em uma outra escala, em termos do que já está acontecendo e as previsões futuras. 

Em um estudo global realizado com 10.000 jovens, entre os 16 e os 25 anos de 10 países diferentes, para avaliar o que pensam das alterações climáticas, foram coletadas respostas que se resumem em duas palavras: extremamente preocupadas. Os participantes também apontaram que os governos não estão fazendo o suficiente para combater as alterações climáticas. O estudo concluiu que existe um fenômeno global que se expressa em uma correlação entre emoções negativas, como a preocupação, e a crença de que as respostas dos governos às alterações climáticas têm sido inadequadas. Assim, a forma como os governos têm abordado – ou não têm abordado – as alterações climáticas, está afetando diretamente a saúde mental dos jovens.

Redes de Apoio e cuidados com a saúde mental 

Diante desse cenário, é importante destacar a importância do amparo psicológico e de uma rede apoio para que as pessoas consigam cuidar da sua saúde mental. O estado precisa garantir serviços públicos de qualidade, não só saneamento básico, mas como também formas de assistência psicológica e acolhimento para pessoas mais impactadas. Sabemos que em muitos lugares esse papel acaba sendo realizado por comunidades religiosas, são as pessoas que estão vivendo diariamente com os problemas e encontram a fé como um caminho de conforto para ultrapassar esses momentos difíceis. 

Unir a ciência, com dados e informações técnicas, junto com os saberes comunitários e redes de suporte já construídas, é um elo essencial para a implementação de estratégias para adaptação climática principalmente nos espaços mais afetados por essa situação de emergência que estamos vivendo. 

 

Julia Rossi é Biofísica, doutoranda em Geografia e Meio Ambiente na PUC Rio e redatora da equipe de comunicação do ISER.

 

Referências 

https://papers.ssrn.com/sol3/papers.cfm?abstract_id=3918955 

https://www.apa.org/news/press/releases/2017/03/mental-health-climate.pdf 

https://yaleclimateconnections.org/2020/02/how-climate-change-affects-mental-health/ 

https://www.ihu.unisinos.br/613279-ansiedade-e-luto-ecologico-a-saude-mental-em-tempos-de-crise-climatica#:~:text=Na%20NPR%2C%20Sharon%20Pruitt%2DYoung,e%20do%20sentimento%20de%20desesperan%C3%A7a

http://rio.rj.gov.br/dlstatic/10112/9857523/4243335/EstrategiadeAdaptacaoasMudancasClimaticasdaCidadedoRiodeJaneiro.pdf

Mulheres que florestam o mundo 

O que as árvores têm a ver com essa mudança no clima? 

Neste dia da árvore não podemos deixar de falar sobre o desmatamento, um problema mundial que tem afetado o clima e impactado a vida de pessoas em diferentes regiões. Nas últimas semanas foram noticiadas ondas de calor pelo mundo todo, inclusive no hemisfério sul, que ainda está na estação de inverno. Chuvas volumosas têm causado estragos em diferentes locais do planeta e a terra está nos avisando: precisamos agir para a sobrevivência da humanidade e de todos os seres vivos.

 

A importância das florestas no equilíbrio do clima

As florestas, que são compostas por diferentes espécies arbóreas, são fundamentais para o equilíbrio da temperatura do planeta e estão diretamente ligadas com o ciclo da água. A evapotranspiração, processo que as árvores liberam vapor d’água para a atmosfera, é fundamental para a regulação das chuvas, e por isso o desmatamento pode gerar secas e queimadas em algumas regiões. O aumento da temperatura atmosférica também faz com que haja uma maior evaporação dos oceanos que também favorece a formação de nuvens e consequentemente das precipitações. As árvores também são um mecanismo de defesa nos casos de enchentes, suas raízes contribuem com a absorção da água e com a firmeza do solo, por isso as encostas arborizadas têm menos riscos de sofrer deslizamentos com os grandes volumes de chuva. 

Mesmo sabendo dos diferentes benefícios que as árvores nos proporcionam, atividades humanas, como a mineração, a monocultura, a agropecuária e as queimadas ainda são responsáveis pelo desmatamento desenfreado. De acordo com os dados da Universidade de Maryland disponíveis na plataforma Global Forest Watch (GFW), do World Resource Institute, o Brasil é o país com a maior perda de florestas primárias tropicais: apenas em 2022, foi responsável por 43% do total global.

Você sabia que mulheres negras e indígenas são as mais afetadas pelas consequências da crise climática? Hoje, vamos te contar histórias de lideranças negras e femininas que criaram centros de reflorestamento nas áreas periféricas onde vivem, no Brasil ou no Quênia.

 

Lourdes Brasil: reflorestamento no Centro Gênesis, na Baixada Fluminense

Apesar desse contexto, temos exemplos inspiradores que nos fazem ter esperança na restauração de biomas tão importantes para nossa sobrevivência. Trazemos aqui o caso da Lourdes Brasil, uma mulher negra, brasileira, nascida na Baixada Fluminense, é economista, PhD em Ecologia Social e fundadora do Centro de Educação Ambiental Gênesis. Uma de suas ações mais importantes foi a interrupção do processo de degradação e a recuperação da cobertura vegetal, que constitui atualmente um laboratório vivo e também é espaço de atividades de educação ambiental. O laboratório vivo está instalado em um ambiente físico, no município de São Gonçalo, no Rio de Janeiro, e corresponde a uma área verde de 60.000 m², composta por espécies da Mata Atlântica. O local constitui um patrimônio paisagístico, que inclui cerca de 300 árvores nativas do Brasil, ipês de diversas cores, espécies frutíferas e ornamentais.

É importante lembrar que a Mata Atlântica é o bioma mais devastado do país, com apenas 24% da sua cobertura vegetal original conservada. Ela abrange cerca de 15% do território nacional, em 17 estados, é lar de 72% da população brasileira e é responsável por metade da produção de alimentos consumidos no país. Além disso, a Constituição Brasileira de 1988 reconhece a Mata Atlântica como Patrimônio Nacional e é o único bioma brasileiro protegido por uma lei especial, a Lei da Mata Atlântica, que dispõe sobre sua proteção e uso de sua biodiversidade e recursos (Lei n° 11.428, de 2006). 

O trabalho do Centro Gênesis liderado por Lourdes Brasil é um exemplo de como a proteção ambiental pode ser aliada com a educação e formar indivíduos atentos e preocupados com essa questão. Mesmo localizado na região metropolitana do Rio de Janeiro, que é densamente povoada, e com diferentes desafios relacionados às desigualdades sociais, o Centro possibilita a manutenção de um microclima que atenua as ilhas de calor característica dos grandes centros urbanos. 

 

Wangari Maathai. Wangari: reflorestamento no Quênia

Atravessando o oceano atlântico e chegando no leste do continente africano, encontramos outro exemplo marcante de reflorestamento no Quênia, com a história da bióloga Wangari Maathai. Wangari tornou-se a primeira mulher no Leste e Centro da África a ter o título de PhD, e fundou o The Green Belt Movement (Movimento do Cinturão Verde, em tradução livre) em 1977. Diante das secas e dificuldades da população em produzir alimento, ela criou este movimento para formar e empregar pessoas das comunidades quenianas no plantio de árvores. Além de diferentes prêmios e quatro livros publicados,  Maathai recebeu o Nobel da Paz em 2004 e, até o dia em que faleceu em 2011, havia mais de 47 milhões de árvores plantadas pelo programa que criou. 

Sabe-se que as mulheres negras e indígenas são as mais impactadas pelos eventos extremos causados pelas mudanças climáticas e que a crise climática é uma crise injusta e atravessada pelo recorte de gênero e raça. Diante da urgência para criarmos ferramentas de enfrentamento à emergência climática, o plantio de árvores, combinado com ações sociais, é uma estratégia fundamental para nossa sobrevivência, e muitas mulheres pelo mundo são protagonistas dessas ações que nos trazem esperanças. Deixamos aqui nossa homenagem a essas e outras mulheres que florestam o mundo e lutam pela justiça climática em seus territórios. 

 

Julia Rossi

Biofísica, Doutoranda em Geografia na PUC Rio e integrante da equipe de comunicação do ISER. 

 

Referências: 

https://www.sosma.org.br/causas/mata-atlantica/ 

https://www.gov.br/mma/pt-br/assuntos/ecossistemas-1/biomas/mata-atlantica 

https://www.revistaea.org/artigo.php?idartigo=4376 

http://www.centrogenesis.com.br/about.html 

https://www.camara.leg.br/proposicoesWeb/prop_mostrarintegra?codteor=645180 

https://brasil.elpais.com/brasil/2018/02/26/politica/1519672164_945082.html

https://brazil.unfpa.org/sites/default/files/pub-pdf/unfpa_climate_change_brief_-_portuguese.pdf 

http://crioula.net/2022/05/2256/v

Uma nova narrativa evangélica inclui também uma nova narrativa ambiental.

“Abacateiro, acataremos teu ato

Nós também somos do mato como o pato e o leão

Aguardaremos, brincaremos no regato

Até que nos tragam frutos teu amor, teu coração”

 

Como os evangélicos pensam sobre as questões ambientais? Esta é uma pergunta complexa, já que os evangélicos não são uma massa homogênea e existem diversos jeitos de ser crente. 

Segundo pesquisa realizada pela agência Purpose, com 2.000 evangélicos em todo o país, cerca de 77% dos crentes gostariam que sua igreja apoiasse atividades ambientais. O cuidado com a criação é, no geral, uma preocupação de pessoas de fé cristã. Mais do que isso, pessoas evangélicas também são vítimas de 

Recentemente, no podcast Casa de Muitas Janelas, contamos a história da Igreja Batista de Coqueiral, uma comunidade evangélica que sofreu o peso da emergência climática nas inundações de Recife em novembro de 2022. O espaço da igreja foi invadido pelas enchentes e, nesse processo, perdeu-se grande parte dos equipamentos. Mas mesmo durante a crise, o lugar que inundava serviu como um lugar de acolhimento para as pessoas da comunidade que estavam sendo vítimas das enchentes e já não tinham onde passar as noites de terror. Foram dias de trabalho voluntário, organização de doações, atendimento médico e psicológico para apoiar as famílias no momento que foi uma espécie de fim do mundo para muitos.

Cristianismo e mudança climática

O caso de Coqueiral mostra que uma experiência evangélica engajada com a perspectiva socioambiental é possível. Mais do que possível, é urgente. A mudança climática tem abreviado os dias de comunidades inteiras por todo o mundo. A poluição da terra, do ar e das águas tem gerado intensas consequências para a saúde do nosso povo. 

Um compromisso profundo com o Cristo de Nazaré, que nos ensinou a olhar e admirar as aves e as flores, deve considerar a preservação ambiental, aqui e agora. O modelo capitalista e predatório de produção, que escraviza a terra e as águas, com o garimpo ilegal e grilagem de terras, está longe do ideal do Reino de Deus.

A espiritualidade das florestas tem muito a nos ensinar

No final de julho, participei da imersão na Amazônia com a CreatorsAcademy, uma plataforma que conecta pessoas produtoras de conteúdo aos biomas brasileiros. Foi a primeira vez que eu, criada no interior mas vivendo a cidade, pude adentrar a floresta amazônica. Ficamos uma semana em comunhão com o povo indígena Puyanawa, que vive na região do Juruá, no Acre. Até 1950, os Puyanawa foram escravizados pelo coronel Mâncio Lima, em um processo de intensa violência, separação de famílias e colonização que levou à perda de parte da cultura indígena. Na retomada, guiados pela espiritualidade, o povo indígena resgata a raiz forte que não se perdeu, que se encontra a cada canto, pintura, vivência aprendida e a cada árvore plantada.

Dentro da floresta, encontrei uma espiritualidade que está para além dos templos religiosos. Uma espiritualidade ancestral que se revelou aos povos indígenas por milhares de anos e que tem sido resgatada quase como um milagre. Encontrei, inclusive, pessoas indígenas evangélicas que retomam a cultura e afirmam que nunca vão deixar de ser indígenas por serem evangélicas.

Enquanto caminhávamos com Cíntia Flores, uma mulher indígena que construiu uma pousada na região ribeirinha do Rio Crôa, encontramos a Sumaúma, também chamada de “árvore da vida” ou “criadora do mundo” pelos povos amazônidas. Entendi o significado do salmo que diz que o justo é como a árvore plantada junto a um ribeiro de águas. Povos indígenas são raízes fortes de justiça. 

Na floresta, ouvi de perto o canto de alegria das árvores da floresta, como escrito na Bíblia:

“Regozijem-se os céus e exulte a terra!

Ressoe o mar e tudo o que nele existe! Regozijem-se os campos

e tudo o que neles há!

Cantem de alegria todas as árvores da floresta”

– Salmos 96:11-12

Lutemos pela floresta de pé

Manter a floresta de pé é um desafio. Um mês depois de nossa passagem pela Aldeia Puyanawa, soubemos que parte da floresta no território Ashaninka, na mesma região, estava sendo queimada. 

A destruição da Floresta Amazônica chegou a 10.362 km² em 2021, o que equivale a metade do estado de Sergipe. O que acontece na floresta impacta na cidade, com as mudanças climáticas que sentimos em todo país, nas secas e enchentes, nas epidemias, nos problemas respiratórios.​

As queimadas, o garimpo ilegal, o desmatamento para criação de pastos colocam em risco a vida de pessoas, animais e toda a biodiversidade. Dezenas de comunidades indígenas, inclusive isoladas, estão ameaçadas pelo avanço da mineração em suas áreas, sofrendo ameaças, violência e contaminação. 

Diante disso, como cristãos devem pensar sobre as questões ambientais?

A floresta está nos planos de Deus. A floresta faz parte de nós. A floresta está dentro de mim. Temos muito a aprender sobre os planos de Deus para o mundo com os povos da floresta.

“De cada lado do rio estava a árvore da vida, que frutifica doze vezes por ano, uma por mês. As folhas da árvore servem para a cura das nações.” – Apocalipse 22:2

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Luciana Petersen é cristã progressista, feminista negra, coordenadora de comunicação do Institutos de Estudos da Religião (ISER), coordenadora do Novas Narrativas Evangélicas, editora do Projeto Redomas, podcaster no Toda Gente e Redomascast.

O saber ancestral da vida moderna

Bacana ver como as pessoas sentem saudade daquilo que foi bom. Quando é negativo, automaticamente o nosso ori – cabeça em yorùbá – trata de esquecer. Sou Joaquim D’Ògún, Babalorixá do Ilê Axé Meji Omi Odara, em Saracuruna, Duque de Caxias, jornalista e escritor da obra Eu, Você e os Orixás. Vamos conversar sobre a nossa alimentação atual e a valorização daquilo que sempre existiu na formação do povo periférico?

Acho interessante o termo utilizado para qualificar os alimentos produzidos no quintal de nossos mais velhos. As tecnologias ancestrais vão de encontro com aquilo que foi apagado pelo próprio sistema através do capitalismo. Ou sua avó não plantava nada em algum espaço da casa?

Terminei os dois primeiros parágrafos com questionamentos, básicos, para deixar claro que existem perguntas que você finge não entender ou que nunca parou, de fato, para pensar.

A nossa saúde debilitada está atrelada a quantidade de agrotóxico utilizado no plantio dos alimentos que consumimos. A falta de preparo da terra viabiliza poluentes prejudiciais ao seu sistema imunológico.

O ar que respiramos oxigena o cérebro. A água dá fluidez ao sangue que corre em suas veias. Por isso a necessidade de saneamento básico, por exemplo. A ausência mata você por dentro. E nem adianta acordar cedo para respirar melhor, como diziam os mais velhos, pois a neblina encontra um solo poluído, fazendo com que o trabalhador inale isso todos os dias em sua longa jordana até o trabalho.

Dentro do candomblé, culto afro-brasileiro existente em nosso país, exaltamos a força do Orixá, que é a natureza. Não, Orixá não é um espírito. Seus ancestrais, familiares ou não, é que almejam a continuidade de sua crença, fazendo com que informações e ações, levem seus consanguíneos até esse encontro energético.

A citação acima é para dizer que: sim, cuidamos da natureza. Os erros cometidos por alguns adeptos, se dá pela falta de conhecimento acerca do que era realizado pelos seus antepassados.

A importância das folhas para o culto é como o glóbulo branco para o seu corpo. Sem elas não há medicina e possível cura. Sua avó cuidou de seus pais com muita taioba, folha construída por carboidratos. Uma espécie de carne vegetal, dada qualidade de seus nutrientes. Tal como o fubá de milho e sustância que ele traz para o corpo, na batalha diária contra a fome. Na África, inclusive, o ekó – canjica de milho branco – e o inhame cará, são os alimentos mais consumidos pela população.

Os itens que trago, assim como outros que poderia citar, eram e, são, essenciais na vida de uma pessoa. Hoje em dia, por conta do capitalismo, cidadãos em situação de vulnerabilidade não reconhecem o valor dessa alimentação viável.

A gente só lembra da abóbora no halloween, mas ela é tão simples de ser plantada que assusta. Os grãos se proliferam pelo chão e dão fibra para o seu corpo. Os índices de anemia não eram baixos atoa. O grão de feijão e demais legumes tinham valia diante da família. 

O que falar do ovo, rico em todas as proteínas. Toda casa tinha sua pequena criação de galinha para que fosse possível consumir esse precioso alimento. Assim como a carne, geralmente degustada no fim do ano, em período festivo de natal e ano novo.

As hortas orgânicas, totalmente necessárias para essa valorização dessas técnicas ancestrais, nos faz pensar onde isso se perdeu. A poluição dos mares impede a pesca nos rios e simples valas, onde as crianças brincavam, por exemplo.

A falta de zelo humano com a natureza desqualifica o que nos mantém vivos, mesmo que nossa saúde prejudicada faça com que pareçamos mortos, internamente. Será preciso mais do que hortas para reativar essa memória alimentar presente em cada um de nós. Políticas de conscientização e preservação de espaços verdes facilitarão que a história ancestral de povos originários e negros não adoeçam ainda mais, como o nosso organismo.

Enquanto isso não ocorre, a renúncia pelo cuidado e preservação é valorizada como tecnologia ancestral pela elite, que comercializa os produtos orgânicos a peso de ouro nas feiras livres.

 

Joaquim Azevedo é Babalorixá do Ilê Àse Meji Omi Odara, Ativista Sociorreligioso, Escritor, Fotojornalista e fundador do movimento de retomada Aquele Axé.

A Campanha Amazônia de Pé e a importância da Fé para a mobilização

 

 

“A Fé sem obras é morta” alguns versículos da Bíblia Sagrada como esse, de forma muito clara e direta, ou através de parábolas e histórias sempre orientaram em mim a construção de uma Fé que move, não apenas montanhas, mas ações que levam a mudanças de paradigma. Lutar pela justiça e combater as iniquidades é um princípio bíblico.

Quando ainda muito pequena eu entendi que a nossa casa comum, morada nessa dimensão e planeta criado pelo criador para seus filhos e filhas estava sob o risco de mudanças desordenadas que poderiam levar à morte e destruição dos seus próprios seres, presumi que qualquer pessoa de Fé deveria se mover para a ação. Porém, descobri que o que deveria ser uma pauta de misericórdia e obediência se transformou em uma guerra política-ideológica;

A quem interessa a destruição das florestas que nos fornecem fôlego de vida e rios de água viva ? perceber que para muitos, para os mais poderosos, o lucro esteja acima da vida me fez pensar que temos duas opções, observar e ver o mundo que conhecemos cair em ruínas ou se mover com táticas e estratégias organizadas que mobilizem pessoas para a ação. Essa foi a minha escolha, afinal, de que me serve uma fé que não gera mudanças?

Perceber o lugar de conciliação entre minha Fé e ativismo ao longo dos últimos oito anos me fez acessar espaços e construir projetos de impacto que tem como principal objetivo a descentralização do debate ambiental e a construção de justiça climática, afinal, assim como as boas novas, informações importantes devem ser espalhadas e chegar em especial, a quem elas mais interessam, nesse caso, as populações que têm sido mais afetadas pela crise climática, onde eu como mulher negra e periférica, amazônida do nordeste brasileiro também me enquadro.

Para construir ações que gerem transformação tem que fazer acreditando, e é assim acreditando, que eu tenho feito parte da construção da Amazônia de Pé, um movimento brasileiro de proteção da Amazônia e seus povos. Dentre os principais objetivos da Amazônia de Pé estão a construção de um Projeto de Lei de Iniciativa Popular pela proteção das Florestas Públicas da Amazônia e a construção de uma maioria climática no Brasil, um grande movimento que tem mobilizado milhões de brasileiros e brasileiras a agir em defesa das nossas florestas, pessoas e seres que nela habitam. 

Construir um projeto que envolva milhares de pessoas, de pequenas crianças do interior de São Paulo até anciãos de aldeias na região do Xingu faz perceber que o fazer acreditando perpassa em muitos momentos por manter a crença, fé, espiritualidade e a esperança, porque é isso que na maioria das vezes nos impede de desistir e permanecer acreditando mesmo quando os cenários políticos enfraquecem e desmobilizam o movimento e geralmente são nas bases que as maiores demonstrações dessa força são observadas. 

Ao longo de um ano de Amazônia de Pé estivemos em atividades religiosas em quilombos na ilha do Marajó, no acampamento indigena Terra Livre em Brasília, presentes na Romaria da Floresta que relembra o assassinato da Irmã Dorothy, em Anapu, no Pará, no encontro anual do Fé no Clima no Rio de Janeiro, nos festejos do Çairé em Alter do Chão, na Conferência do Novas Narrativas Evangélicas em São Paulo e outros espaços onde Fé e luta se encontram e se transformam em esperança. 

A força do coletivo é o que tem feito  a mensagem da Amazônia de pé se espalhar, ganhar fôlego e vingar em tantos lugares do Brasil. Um movimento que não se propõe como religioso mas que dialoga com diferentes movimentos por um objetivo em comum, celebrando as culturas e reforçando a importância da pluralidade. Afinal, independente da crença é de comum acordo que provavelmente nós somos a última geração que pode salvar a Amazônia. 

Queremos que cada vez mais pessoas, instituições e coletivos acreditem que falar e agir pela Amazônia é também um exercício de Fé, uma fé viva que gera e nutre mudanças. Por isso, o convite final dessa leitura é para que mais pessoas e instituições façam parte desse movimento, construindo com as mais de 21 mil pessoas e quase 300 organizações que fazem parte desse movimento a virada pela Amazônia que o Brasil precisa, levando esperança e oportunidade de ação pelas redes, rios e ruas do Brasil.

 

 

Karina PenhaGestora de Mobilização da Amazônia de Pé 

Maranhense, Bióloga, socioambientalista e ativista pela justiça climática. Gestora de Mobilização da campanha Amazônia de Pé no NOSSAS. Articuladora na Organização de Jovens Engajamundo onde coordenou o Grupo de Trabalho sobre Mudanças Climáticas e três delegações de jovens nas Conferências de Clima da ONU. Parte da iniciativa Uma Concertação pela Amazônia e colaboradora das redes Fé no Clima, PerifaConnection, Colabora Moda Sustentável e comunidade de Prática em Gênero e Clima do Observatório do Clima.