A Campanha Amazônia de Pé e a importância da Fé para a mobilização

 

 

“A Fé sem obras é morta” alguns versículos da Bíblia Sagrada como esse, de forma muito clara e direta, ou através de parábolas e histórias sempre orientaram em mim a construção de uma Fé que move, não apenas montanhas, mas ações que levam a mudanças de paradigma. Lutar pela justiça e combater as iniquidades é um princípio bíblico.

Quando ainda muito pequena eu entendi que a nossa casa comum, morada nessa dimensão e planeta criado pelo criador para seus filhos e filhas estava sob o risco de mudanças desordenadas que poderiam levar à morte e destruição dos seus próprios seres, presumi que qualquer pessoa de Fé deveria se mover para a ação. Porém, descobri que o que deveria ser uma pauta de misericórdia e obediência se transformou em uma guerra política-ideológica;

A quem interessa a destruição das florestas que nos fornecem fôlego de vida e rios de água viva ? perceber que para muitos, para os mais poderosos, o lucro esteja acima da vida me fez pensar que temos duas opções, observar e ver o mundo que conhecemos cair em ruínas ou se mover com táticas e estratégias organizadas que mobilizem pessoas para a ação. Essa foi a minha escolha, afinal, de que me serve uma fé que não gera mudanças?

Perceber o lugar de conciliação entre minha Fé e ativismo ao longo dos últimos oito anos me fez acessar espaços e construir projetos de impacto que tem como principal objetivo a descentralização do debate ambiental e a construção de justiça climática, afinal, assim como as boas novas, informações importantes devem ser espalhadas e chegar em especial, a quem elas mais interessam, nesse caso, as populações que têm sido mais afetadas pela crise climática, onde eu como mulher negra e periférica, amazônida do nordeste brasileiro também me enquadro.

Para construir ações que gerem transformação tem que fazer acreditando, e é assim acreditando, que eu tenho feito parte da construção da Amazônia de Pé, um movimento brasileiro de proteção da Amazônia e seus povos. Dentre os principais objetivos da Amazônia de Pé estão a construção de um Projeto de Lei de Iniciativa Popular pela proteção das Florestas Públicas da Amazônia e a construção de uma maioria climática no Brasil, um grande movimento que tem mobilizado milhões de brasileiros e brasileiras a agir em defesa das nossas florestas, pessoas e seres que nela habitam. 

Construir um projeto que envolva milhares de pessoas, de pequenas crianças do interior de São Paulo até anciãos de aldeias na região do Xingu faz perceber que o fazer acreditando perpassa em muitos momentos por manter a crença, fé, espiritualidade e a esperança, porque é isso que na maioria das vezes nos impede de desistir e permanecer acreditando mesmo quando os cenários políticos enfraquecem e desmobilizam o movimento e geralmente são nas bases que as maiores demonstrações dessa força são observadas. 

Ao longo de um ano de Amazônia de Pé estivemos em atividades religiosas em quilombos na ilha do Marajó, no acampamento indigena Terra Livre em Brasília, presentes na Romaria da Floresta que relembra o assassinato da Irmã Dorothy, em Anapu, no Pará, no encontro anual do Fé no Clima no Rio de Janeiro, nos festejos do Çairé em Alter do Chão, na Conferência do Novas Narrativas Evangélicas em São Paulo e outros espaços onde Fé e luta se encontram e se transformam em esperança. 

A força do coletivo é o que tem feito  a mensagem da Amazônia de pé se espalhar, ganhar fôlego e vingar em tantos lugares do Brasil. Um movimento que não se propõe como religioso mas que dialoga com diferentes movimentos por um objetivo em comum, celebrando as culturas e reforçando a importância da pluralidade. Afinal, independente da crença é de comum acordo que provavelmente nós somos a última geração que pode salvar a Amazônia. 

Queremos que cada vez mais pessoas, instituições e coletivos acreditem que falar e agir pela Amazônia é também um exercício de Fé, uma fé viva que gera e nutre mudanças. Por isso, o convite final dessa leitura é para que mais pessoas e instituições façam parte desse movimento, construindo com as mais de 21 mil pessoas e quase 300 organizações que fazem parte desse movimento a virada pela Amazônia que o Brasil precisa, levando esperança e oportunidade de ação pelas redes, rios e ruas do Brasil.

 

 

Karina PenhaGestora de Mobilização da Amazônia de Pé 

Maranhense, Bióloga, socioambientalista e ativista pela justiça climática. Gestora de Mobilização da campanha Amazônia de Pé no NOSSAS. Articuladora na Organização de Jovens Engajamundo onde coordenou o Grupo de Trabalho sobre Mudanças Climáticas e três delegações de jovens nas Conferências de Clima da ONU. Parte da iniciativa Uma Concertação pela Amazônia e colaboradora das redes Fé no Clima, PerifaConnection, Colabora Moda Sustentável e comunidade de Prática em Gênero e Clima do Observatório do Clima.