Imagine que você é uma criança que nasceu em uma família das classes populares com pouco ou nenhum recurso material e oportunidades. Esse cenário por si só já dita uma série de condições que você passará logo nos primeiros anos de vida: o local de moradia, o tipo de alimentação que recebe, mais ou menos acesso à saúde e muitas outras coisas. Muito provavelmente a sua família te orientará a alcançar melhores condições de vida. Essa história poderia se passar no Brasil ou em qualquer outro país do mundo, quem cresce na pobreza e convive com as adversidades provocadas pelas desigualdades sociais busca meios de escapar dela. A escolha da imensa maioria das pessoas para sair da escala de sobrevivência perpassa majoritariamente a educação. Na prática, quanto mais anos nos bancos escolares significa colher frutos preciosos no futuro: um trabalho que possibilite comer e morar melhor, ter mais saúde, direito a lazer e melhores acessos de maneira geral. Como demonstra o estudo da FGV, realizado pelo pesquisador Daniel Duque, em 2019, que conclui que a educação alavanca a mobilidade social no Brasil.
Desigualdade
Mesmo em países como o Brasil, onde a oferta da educação básica pública e gratuita avançou muito em todas as regiões, é também uma realidade a convivência em paralelo com problemas estruturais do campo. A falta de estrutura física dos espaços educacionais, orçamentos insuficientes, ausência de planos de carreira estruturados dos profissionais da educação são alguns dos pontos cruciais que fragilizam o sistema educacional brasileiro e contribuem para resultados insatisfatórios de aprendizagem dos educandos. Mas, ainda assim, a educação continua sendo a melhor e mais provável estratégia de melhoria de vida entre gerações, através da ascensão econômica que ela representa. Repare: não estamos falando de enriquecimento, mas de passar a ter o mínimo de dignidade.
As mudanças climáticas
Se somando e adensando esse “caldo” das adversidades que afetarão fortemente a educação, sobretudo para quem está nas classes baixas e é o público principal da escola pública: temos as mudanças climáticas. É um fato que o planeta está colapsando. As altas taxas de gases intensificadores do efeito estufa que são lançados na atmosfera terrestre dia após dia é a razão do aumento da temperatura na Terra (IPCC): esse aquecimento, por sua vez, traz impactos concretos na vida das pessoas, nos territórios e para os outros seres vivos que coabitam conosco na Terra. A cada vez que um evento extremo acontece, crianças, jovens ou adultos se veem impedidos de frequentar a escola momentânea ou permanentemente. Isso é o que aponta pesquisa da UNICEF “Aprendizagem interrompida: panorama global das interrupções escolares relacionadas ao clima em 2025”, ao apurar que somente em 2025 cerca de 171 milhões de estudantes se viram obrigados a se ausentar do ambiente escolar em algum período do ano devido a esses eventos extremos, cada vez mais recorrentes.
Alguns achados da pesquisa
Esses 171 milhões de estudantes, oriundos desde o período pré-escolar até o ensino médio, tiveram o seu acesso à escola interrompido em algum momento no ano de 2025. Destes, 75% são oriundos de países de baixa ou média renda. O estudo estima que essas interrupções podem representar um prejuízo de cerca de 200 bilhões de dólares que esses estudantes deixarão de ganhar devido a perda educacional neste período. Essas paralisações por risco climático ocorreram em escolas de 106 países ou territórios, chegando a afetar um número de 1 em cada 10 estudantes.
O cenário de piora de mudanças climáticas
O Programa das Nações para Meio Ambiente – PNUMA, divulgou recentemente em relatório, que o mundo deve ultrapassar o aumento de 1.5°C de aquecimento da temperatura média da Terra nos próximos anos. Vale lembrar que a meta do 1.5°C é um dos resultados do histórico Acordo de Paris, fechado na Conferência das Partes sobre Clima de 2015. O 1.5°C é, por si só, preocupante. Ele já representa graves consequências para o regime climático planetário com o aumento da ocorrência e intensidade de eventos climáticos extremos em todos os continentes. Entretanto, um avanço superior ao 1.5°C torna o panorama ainda mais caótico e imprevisível. De acordo com o comunicado de imprensa do órgão, apesar do relatório apontar que ainda é possível uma via de solução que siga o modelo “ultrapassagem da meta, pico de aquecimento e declínio” a fim de que o 1.5°C ainda seja viável, para seu sucesso serão necessárias várias ações contundentes de mitigação e adaptação, que perpassam por forte vontade política de líderes mundiais e o multilateralismo.
O que está em jogo? a esperança de um futuro e possibilidades
A possibilidade de um futuro melhor, conquistada via educação, é que está ameaçada. Se o principal instrumento de melhoria de vida de populações vulnerabilizadas está sendo prejudicado, o resultado é mais desigualdade, pobreza e exclusão. Toda vez que um tomador de decisão abraça o negacionismo climático e protela ações de adaptação e mitigação, o que está em jogo é a possibilidade de sonhar e construir um futuro que também se está atacando.
Sharah Luciano, educadora socioambiental, ativista climática e Coordenadora das Formações Boto Fé no Clima, na área de Religião e Meio Ambiente do ISER.
