O Meio Ambiente como espaço sagrado: Reflexões sobre a vivência em religiões de matriz africana e sua conexão com a natureza

Ao longo dos últimos 100 anos, a preocupação com a pauta ambiental tornou-se, aos poucos, central na política nacional e internacional, ganhando força em suas mais diferentes vertentes, desde a proteção dos direitos dos animais, a luta contra a poluição ou a busca de um enfrentamento às mudanças climáticas. O aumento da projeção dessas lutas, surgindo por conta de uma série de crises ambientais já vividas ou esperadas pelo ser humano, ocorre ainda em um período em que a fé e a conexão e presença em uma religião ainda é um elemento central na vida da maioria das pessoas.

Quando pensamos no Brasil, um país único com tamanha biodiversidade, riquezas naturais e destaque para nosso meio ambiente, a máxima de conservação ainda está longe de ser alcançada, mesmo com o crescimento da importância da religião dentro das famílias brasileiras. Em diferentes religiões, a natureza é colocada como um local sagrado, presente da criação, que deve ser protegido; em religiões de matriz africana, essa máxima é ainda mais presente.

Como mãe de santo, aprendi que a natureza é muito mais do que o lugar onde vivemos. Ela é sagrada. Na Umbanda, as matas, os rios, as cachoeiras, o mar e os ventos carregam a força dos Orixás. Quando saudamos Oxóssi nas matas, Iemanjá no mar ou Oxum nas águas doces, estamos reconhecendo a importância desses espaços para a vida e para a nossa espiritualidade.

Por isso, cuidar da natureza não é apenas uma questão ambiental. É também uma questão de fé. Estamos vivendo um momento em que enchentes, secas e ondas de calor têm afetado a vida de muitas pessoas. Diante disso, não basta apenas rezar ou pedir proteção. Precisamos fazer a nossa parte e entender que cada atitude conta.

A Umbanda ensina o respeito e a gratidão pela natureza. Quem entende o valor da água não desperdiça. Quem reconhece a força das matas não contribui para sua destruição. Quem percebe que tudo está ligado sabe que os danos causados ao meio ambiente acabam voltando para todos nós. Talvez a crise climática também seja um convite para refletirmos sobre a forma como nos relacionamos com o mundo. As religiões de matriz africana carregam há séculos o ensinamento de que o ser humano faz parte da natureza e deve viver em equilíbrio com ela.

Cuidar da Terra é cuidar da criação de Zambi, respeitar os Orixás e preservar o futuro daqueles que virão depois de nós. Porque a Terra também é um terreiro.

Nesses momentos, é importante voltar-se para movimentos que buscam fazer essa reconexão com o sagrado e com a natureza, colocando movimentos e comunidades de fé como mobilizadoras da opinião pública. Movimentos católicos como a Pastoral da Terra, que colocaram a imagem da Nossa Senhora de Nazaré como defensora da criação durante a COP 30. Programas do Movimento Negro Evangélico (MNE) que visam o engajamento de lideranças dentro de comunidades de fé protestantes com a temática socioambiental e climática; organizações como o Terreiros pelo Clima e o Instituto Terreiro Sustentável, que visam reforçar o papel de religiões de matriz africana como defensores da natureza, possuindo uma conexão intrínseca com o meio ambiente. E por fim, instituições inter-religiosas como o ISER que promovem o diálogo e a cooperação para a defesa de valores democráticos, sociais e sustentáveis.

É necessário cada vez mais, reforçar a importância da fé, como um dos principais subsídios para a defesa socioambiental e as mudanças climáticas. É necessário reconectar o vínculo humano com a natureza em que vivemos.

Por: Mãe Marcelle de Oyá
Luan Werneck-Costa