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O que é a COP e por que o ISER está na conferência

Realizada desde 1995, a COP (Conferência das Partes) é o encontro da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC) para dirigente políticos, mas que também reúne anualmente representantes de diversos países, cientistas e organizações da sociedade civil para debater a pauta climática. Durante a COP são discutidas práticas possíveis de serem aplicadas para a mitigação, adaptação e financiamento de projetos para países mais vulneráveis à crise climática. 

 

Um dos principais objetivos da conferência é ter como resultado a redução da emissão de gases efeito estufa (GEE), como foi tratado no Acordo de Paris, que entrou em vigor em 2016. Na ocasião, os 55 países que representavam no mínimo 55 % das emissões mundiais de GEE, se comprometeram com a redução. 

 

Ao longo dos anos, as plenárias compostas por chefes de estado vêm dividindo o protagonismo com representantes de diversos setores da sociedade civil. São ativistas, membros de ONGs, lideranças religiosas, pesquisadores, executivos e empresários conscientes da importância de integrar as discussões sobre o futuro do planeta e da humanidade. 

 

De 2019 para cá, o ISER tem acompanhado de perto as ações e os debates da COP por meio de nossa iniciativa Fé no Clima, criada em 2015. O projeto surgiu no contexto de dois importantes eventos daquele ano: a promulgação da encíclica “Laudato Sí”, do Papa Francisco, e a Conferência das Partes da Convenção Quadro das Nações Unidas para as mudanças climáticas – a COP 21, ocorrida em Paris. 

 

Assim como nas edições anteriores, nós estamos na COP 27 porque temos como missão reunir e engajar lideranças religiosas para a conscientização de suas comunidades de fé no enfrentamento da crise climática. Fazemos isso por meio do diálogo entre cientistas, religiosos, ambientalistas e representantes de povos originários, com objetivos de adaptação, resiliência e justiça climática.

 

Desde então, atuamos em diálogo com lideranças de comunidades de fé, participação em redes e espaços da agenda climática, produção e difusão de informações sobre temas ambientais e climáticos, entre outras ações

 

A sociedade civil tem construído movimentos importantes para a conscientização sobre a crise climática e na busca por direitos e políticas a partir de mobilizações e campanhas por todo o mundo. Continuaremos mobilizando e cobrando por meio da Fé para que políticas deem suporte à população mais impactada por essa crise, e a justiça climática seja uma prioridade para todos.

 

Quer fazer parte da Rede de Juventudes Fé no Clima?

Como a relação entre fé e juventudes pode construir soluções que diminuam os impactos da crise climática? No ano passado, a iniciativa Fé no Clima iniciou um trabalho para se conectar com jovens da região Amazônica e encontrar essas respostas.

Agora a intenção é ampliar a Rede de Juventudes Fé no Clima com a adesão de jovens de todo o Brasil. Basta preencher o formulário para ficar por dentro de todas as nossas ações – e participar! A ideia é que possamos conhecer e conversar com cada um de vocês! Os dados coletados serão usados somente para comunicações referentes ao projeto.

Preencha o Formulário Aqui 

Eventos climáticos e tragédias recorrentes: o que o caso de petrópolis nos alerta?

Completa-se dez dias desde a tragédia que ocorreu na região de Petrópolis e continuamos consternados com todas as perdas. Além do sentimento de tristeza pela tragédia em si, também nos deparamos com questões urbanas e ambientais que precisam ser pautadas para que haja a proteção da população mais vulnerável a esses eventos climáticos. Trazemos aqui alguns pontos para refletir sobre a necessidade de implementação de políticas para a gestão de riscos climáticos bem como políticas sociais para a redução das desigualdades. Para essa reflexão, convidamos Luísa Ázara Ramos, petropolitana, bióloga, professora, educadora ambiental e uma das pessoas que está trabalhando arduamente nas frentes de recuperação da cidade.

Luísa nasceu e foi criada no Alto da Serra, região do Morro da Oficina, onde ocorreram muitas perdas humanas, pois diversas casas deslizaram nessa encosta. Segundo ela, a região serrana do Rio de Janeiro possui o relevo acidentado, com cidades na beira de rios, e o asfalto não permite a infiltração da água da chuva, e não há escoamento. Por isso, quando os rios enchem, o volume de água aumenta muito e com ela vem a força devastadora que arrasta tudo pela frente.

Existem três importantes rios que passam no Centro da cidade de Petrópolis: Piabanha, Quitandinha e Palatinato. Segundo especialistas, uma das principais causas para a tragédia teria sido a obstrução de um canal que leva as águas do Quitandinha para o restante da cidade. A falta de obras estruturais emergenciais tiveram papel crucial na tragédia provocada pelas fortes chuvas que atingiram Petrópolis no dia 15 de fevereiro.

A bióloga aponta a urgência de se pensar no planejamento urbano, e levar em conta o código florestal e as áreas de preservação ambiental que a cidade vai ocupando sem fiscalização e não respeitando as medidas de proteção. Outras áreas da região são uma ‘bomba relógio’ para a cidade, e faltam obras estruturais de manutenção que precisam ser feitas, como um “túnel estravasador”, para sanar essa questão hídrica. Especialistas também afirmam que, se tivessem sido feitas obras de contenção de encostas e de desobstrução do maior canal subterrâneo do município, que há mais de duas décadas não é feita, os impactos poderiam ter sido atenuados.

Luísa ressalta como grande questão o fato de que as pessoas mais atingidas, como no Morro da Oficina, já eram pobres e perderam o pouco que tinham. Ou seja, se essa população não tiver uma moradia digna e os governantes não executarem um programa habitacional sério, as pessoas que sobreviveram ao desastre vão se mudar novamente para uma área suscetível a eventos climáticos extremos e cada vez mais frequentes.

Além de programas habitacionais e uma reforma urbana na infraestrutura de escoamento de água e contenção de encostas, é necessário também investir em um processo educacional. Segundo Luísa Ázara, “as pessoas têm que ter consciência ambiental e também participação na vida política, nós temos mecanismos de participação popular e precisamos nos apropriar disso para cobrar medidas efetivas”

Pela perspectiva da justiça climática, ela afirma então que “se partimos dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, podemos perceber que estamos falando de questões sociais, portanto, se a gente não erradicar a pobreza e não der soluções para o acesso à moradia digna, à saúde e ao meio ambiente equilibrado, continuaremos sofrendo com essa tragédia.”

Diante desse cenário de destruição, Luísa desabafa sobre a sensação de angústia e impotência, e, ao mesmo tempo, de muita colaboração, formação de redes de apoio, muitas partindo de igrejas evangélicas e católicas, que estão acolhendo pessoas desabrigadas, oferecendo apoio, comida e direcionando para lugares adequados. “Sobre a fé, acho que é a única coisa que mantém de fato as pessoas de pé e fazendo o que é possível nesse momento. Famílias inteiras destruídas, se você não tiver fé nesse momento, você não consegue se levantar.”

Julia Rossi – Pesquisadora do Fé no Clima

O que é racismo climático?

Em nosso último texto sobre as enchentes e mobilizações para o enfrentamento aos desastres climáticos, discutimos sobre as condições naturais e sociais que influenciam no impacto dessas chuvas às populações mais vulneráveis. Essa população mais afetada não é composta por pessoas brancas e ricas do país, ao contrário, é , em sua maioria, negra, indígena e pobre (1). Essa relação resume-se em um termo que está sendo cada vez mais utilizado e que queremos desenvolver aqui um pouco, o racismo climático.

O racismo climático é um termo que na teoria é novo, mas na prática de quem vive nesse contexto de desastres causados pelos eventos climáticos, ele é um termo muito presente na vivência dessas pessoas. Esse conceito também está relacionado com a injustiça climática, que é usada para identificar essa população e grupo de pessoas que menos cooperam com essa crise climática mas são os mais afetados por ela. Segundo Karina Penha, que é bióloga, ativista climática e mobilizadora do Nossas e parte do Fé no Clima,  “quando a gente olha para essa realidade, mesmo com a escassez de dados relacionados às categorias de raça e cor, a gente sabe que as pessoas mais afetadas são aquelas que vivem em regiões periféricas. Existe uma dificuldade de transparência e acesso a dados que racializem essa análise sobre os impactos, o que dificulta saber sobre essas pessoas.”

Segundo ela, quando existe um estudo de impacto sobre o local, com a escuta dos relatos de pessoas que vivem nos territórios atingidos, é possível observar que as pessoas mais afetadas são as pessoas negras. Além disso, nas áreas com populações tradicionais como os quilombos, aldeias indígenas e reservas extrativistas existe uma subnotificação dos dados e poucos estudos aprofundando o tema. Karina também coloca que essa discriminação pode ser regional, pois quando acontece no Norte e Nordeste, regiões onde a população negra é maioria, não existe tanta comoção e visibilidade como em outras regiões do país. A falta de mobilização por essa causa reflete a discriminação e naturalização desse racismo.

Nos centros urbanos também é possível perceber essa diferença dos impactos ambientais; em casos de alagamento e deslizamento de encostas causados pelo grande volume de chuva, as favelas e bairros periféricos que possuem a população majoritariamente negra, sempre são afetados de forma mais grave. A falta de saneamento básico e outros direitos que são negados a essa população dificulta ainda mais o enfrentamento da crise climática nesses territórios.

Karina também aponta que existe um descaso público em relação ao planejamento específico de obras para redução dos riscos e formas de adaptação para a proteção dessas populações. O poder público tem o conhecimento que determinadas regiões estão mais vulneráveis à eventos extremos, como a elevação do nível do mar, as cheias dos rios, as estiagens, mas ainda não existe uma ação pública que atue prontamente no auxílio e suporte às famílias impactadas.

O racismo ambiental também é um termo utilizado para identificar desigualdades raciais no acesso à justiça ambiental. Essa categoria abarca além dos eventos climáticos, os crimes ambientais, como foi o caso de Mariana (2) e de outras barragens de mineradoras (3). A importância de se trazer o tema do racismo climático é aproximar a questão racial para o debate das mudanças climáticas que sempre foi abordado de forma técnica e pouco social. Na COP 26, que aconteceu em novembro de 2021, houve um avanço nessa discussão com a participação da Coalizão Negra por Direitos que ressaltou a titulação de terras quilombolas como uma política de desmatamento zero e de controle do aquecimento global (4).

Cada vez mais o racismo climático está ficando em evidência, mas temos um grande trabalho de pautar essas injustiças nos ambientes que ocupamos. Precisamos comunicar e circular mais informações sobre essa abordagem que reivindica que a garantia do direito ao meio ambiente saudável para todos os cidadãos seja respeitado, e não só para aqueles que historicamente possuem privilégios e alto poder aquisitivo.

 Julia Rossi – pesquisadora do Fé no Clima

1 – https://www.uol.com.br/ecoa/reportagens-especiais/racismo-ambiental-comunidades-negras-e-pobres-sao-mais-afetadas-por-crise-climatica/#cover

2 – http://www.global.org.br/blog/racismo-ambiental-no-desastre-em-mariana/

3 – https://racismoambiental.net.br/2022/01/28/ultimo-relatorio-de-seguranca-de-barragens-aponta-falta-fiscalizacao-e-informacoes-basicas-sobre-os-riscos-da-maior-parte-das-barragens-brasileiras/

4 – https://coalizaonegrapordireitos.org.br/category/cop26/