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As juventudes estão ativas nas causas socioambientais

À medida que o agravamento da emergência climática avança e impacta diferentes áreas da vida, torna o senso de urgência de ação, principalmente de quem é diretamente afetado por ela, muito mais latente. É altamente perceptível que as coisas “não andam bem” e essa nova geração tem estado atenta a isto. Em 2022, a pesquisa nacional “Juventudes, Meio Ambiente e Mudanças Climáticas”, realizada pelo Em Movimento, Rede Conhecimento Social, Engajamundo e Instituto Ayíka, apontou que o meio ambiente está entre os três assuntos que mais interessam às juventudes brasileiras. Segundo a pesquisa, 81% dos jovens entrevistados concordam que as mudanças climáticas impactam na qualidade de vida e  62%  afirmaram que o meio ambiente afeta a religião ou filosofia de vida deles e delas. 

Essa percepção transborda para os espaços de fé

A noção de que os problemas ambientais afetam a vida das pessoas numa dimensão holística, com desdobramentos inclusive para esfera da espiritualidade ou religiosidade, é algo que já tem sido abordado pelos movimentos e organizações que trabalham com as temáticas de fé e meio ambiente há pelo menos 30 anos. No Brasil, um marco para essa interseção foi a realização da Vigília um Novo dia pela Terra. O evento inter-religioso, foi coorganizado pelo ISER e demais lideranças espirituais e religiosas em paralelo à ECO92, quando centenas de chefes de Estado se reuniram no Rio de Janeiro para tratar sobre meio ambiente e desenvolvimento. Nesses mais de 30 anos que separam 1992 dos dias atuais, a temática ambiental avançou no debate público, mas também dentro das comunidades religiosas. O Fé no Clima, iniciativa que nasce na área de Religião de Meio Ambiente do ISER, com a missão de reunir e engajar lideranças religiosas para conscientização de suas comunidades de fé no enfrentamento à crise climática, é um desses exemplos. Com o amadurecimento da Iniciativa e a consolidação das redes que se formaram em torno dela, foi possível perceber que, para além das lideranças religiosas, era importante olhar para as pessoas membros das comunidades de fé, em especial, as juventudes. Pois elas também têm interesse por “levar” não só o tema ambiental para as discussões dos seus espaços de fé, mas sob a forma de atividades e práticas que evoquem a sustentabilidade. 

As formações do Fé no Clima

Se por um lado a emergência climática coloca todas as pessoas em risco, não são todos os que estão fortemente engajados em resolver este problema. Apesar das transformações do clima estarem sendo amplamente sentidas, falta, de maneira geral, uma melhor compreensão sobre a problemática e, acima de tudo, o que e como fazer. Quando olhamos mais específicamente para os espaços de fé demanda-se uma ação mais cuidadosa, pois a linguagem que requer é  diferenciada: não é apenas o debate sobre os desafios ambientais, mas uma perspectiva que aponte fundamentações para o cuidado ambiental tanto científicas quanto com base na fé. Fomentar educação socioambiental e climática tem sido uma via frutífera e de conexão com esse público. Nos últimos anos o Fé no Clima tem aberto anualmente turmas regulares de formações. Nas aulas do Boto Fé no Clima: juventudes de fé e ação climática (BFC), ao longo de 2 meses e meio, os participantes aprendem sobre mudanças climáticas, a relação entre fé e meio ambiente, a partir de suas religiões/espiritualidades e comunicação e mobilização. Ao final dos processos formativos, recebem a missão de desenvolverem um projeto que relacione fé e meio ambiente, seja nas suas comunidades de fé, territórios ou para disseminação nas redes sociais. Além do BFC, foram realizadas formações com focos específicos, como o Boto Fé no Clima: adaptação climática e Boto Fé nas Águas: justiça climática e acesso a direitos. 

Pequenas ações: bases para transformações maiores

Mais do que aprenderem sobre a temática, o que essas experiências têm promovido é a oportunidade de transformar a teoria em algo concreto e palpável. Por todo o Brasil, em terreiros, centros, igrejas, aldeias, comunidades, territórios e pelas redes sociais,  rodas de conversa, reuniões, entrevistas, podcasts, vídeos, cineclubes, hortas e outros mais diversos formatos têm sido criados pelas juventudes que fazem o Boto Fé no Clima. Apesar de toda a diversidade no desenvolvimento dos projetos, eles têm algo em comum: falar de forma fácil, acessível e sensível sobre algo que já adentrou nas mentes e corações desses jovens: defender o meio ambiente, o clima e uma relação socioambiental equilibrada é também responsabilidade das pessoas de fé. No decorrer desses três anos, mais de 170 ações já foram realizadas nas cinco regiões do Brasil. Muito mais do que atividades pontuais, os projetos integralizados são ricas oportunidades de semear diálogos e práticas contínuas sobre a interseção entre a fé e o cuidado com a natureza. Como também alcançar mais pessoas que por outras vias não teriam acesso a esses debates. Além de criar um acervo rico de práticas que podem ser replicadas em outros momentos e contextos. E não finaliza aí, uma vez formados esses jovens passam a integrar a Rede de Juventudes do Fé no Clima.

O exemplo das vigílias 

Durante o ano de 2025 as Vigílias pela Terra, eventos inter-religiosos e culturais, co-realizados pelo ISER, regionalmente, e parte do percurso para a COP30 mostraram a força e engajamento dos jovens. Em todas elas tivemos jovens da Rede engajados no processo de preparação, mobilização e participação das vigílias. O que demonstra a vivacidade dessa Rede, a profundidade dessa conexão e a disposição ativa dessas juventudes em fazer ecoar essa mensagem de cuidado e responsabilidade ambiental. Este compromisso ultrapassa as paredes físicas dos templos, mas sim se expande e soma forças com aqueles e aquelas que mesmo de outras matrizes de fé vivenciam o mesmo propósito. 

O que aprendemos com isso?

Frear a emergência climática uma prioridade latente para a humanidade. Não é só a natureza que está ameaçada, é a segurança e possibilidade da existência da vida em suas infinitas formas. Portanto, uma tarefa que precisa ser compartilhada entre todos os setores, classes e gerações. Nos espaços religiosos e de fé, as juventudes têm um papel importante de promotores das pautas ambientais, bem como, de apoiarem suas lideranças nessa missão. O que tem ocorrido de forma muito potente e consistente. 

Sharah Luciano, coordenadora de formações do Fé no Clima

Do Éden até os dias de hoje: O papel dos filhos de Deus no cuidado com a criação

Do Éden até os dias de hoje: O papel dos filhos de Deus no cuidado com a criação

Esse e-book é resultado do projeto final do curso sobre Fé e Clima, do Instituto de Estudos da Religião (ISER), e tem por finalidade trazer uma breve reflexão de como a fé cristã está relacionada às questões ambientais e qual é o dever dos filhos de Deus dentro desse contexto. Espero que essa iniciativa desperte o interesse de comunidades de fé acerca do papel do homem no cuidado com o meio ambiente.

Leia o E-book completo!


Desenvolvido por:

Suellen de Oliveira Guimarães – Membra na Igreja Nova Vida Jardim Anhangá
Bióloga, Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Mestra em Zoologia, Museu Nacional (MNRJ/UFRJ).

“Nós, de matriz africana, precisamos entender que sem erva e sem água, nós não temos nada.” – Entrevista com o Tat’etu Kavunjesi, do Inzo Unsaba Ionene.

Foto: Projeto Muilo

A ideia desta entrevista nasceu de uma parceria entre mim, Luiz Lopes e meu pai pequeno, Tat’etu Kavunjesi, como trabalho final do curso Boto Fé no Clima, promovido pelo Instituto de Estudos da Religião (ISER), em 2025. Portanto, movido pelas trocas experiências entre os participantes de diferentes tradições religiosas, convidei o Tat’etu Kavunjesi, liderança do Inzo Unsaba Ionene, o primeiro terreiro de candomblé da cidade de Pinheiral, para um diálogo sobre como essa comunidade de matriz africana enfrenta e compreende os desafios impostos pelas transformações do clima.

 


Pedro Paulo Nogueira, mais conhecido como Tat’etu Kavunjesi, é o zelador do primeiro terreiro de candomblé da cidade de Pinheiral, município localizado na região do Vale do Café, no Estado do Rio de Janeiro. Sua trajetória nesta religião começou ainda novo, sendo iniciado em 1973 para o nkisi Kavungo (orixá Obaluaê) e, atualmente, é filho de santo de Mam’etu Mabeji, do também tradicional terreiro Kupapa Unsaba, no bairro de Anchieta, na cidade do Rio de Janeiro. 

Fundado em 1979, o Inzo Unsaba Ionene nasceu com a missão de tocar umbanda. No ano seguinte, em 1980,  após o Tat’etu Kavunjesi concluir suas obrigações de santo, a casa também passou a se dedicar ao candomblé Congo-Angola, assumindo suas responsabilidades religiosas nesta tradição de matriz africana. 

Foto: Luiz Lopes


Confira a entrevista completa:

O que é ser pai de santo para o senhor? Qual o papel desta liderança religiosa dentro da comunidade e para o meio ambiente? 

É muito complicado falar o que é ser pai de santo para mim mesmo. Eu vejo o sacerdote como uma pessoa que acaba sendo um exemplo para muitas situações, para muitas pessoas, aquele porto seguro para outras tantas, aquele que tem que estar sempre sendo amigo, companheiro e mesmo pai (…). E aí eu acho que existe todo um processo coletivo nisso tudo. Eu sou porque nós somos. Se eu não tivesse filhos de santo, eu não seria pai de santo. Então, é todo um conjunto, né? Acabar suprindo a necessidade um do outro. Eu tento manter uma comunidade pensando sobre a natureza.

Nós, de matriz africana, precisamos entender que sem erva e sem água, nós não temos nada. Não temos condições de fazermos nada dentro do candomblé.

Então, eu sempre tento manter esse processo de não sujar o rio, não sujar as matas, cachoeiras, enfim, e automaticamente com o uso das ervas, cuidar das ervas, proteger as ervas, procurar conhecer também, que é fundamental, não é só proteger, mas conhecer também essas ervas, tanto para fins ritualísticos quanto para fins medicinais. 

Qual é a importância das ervas nos rituais? Como é esse vínculo com as plantas? 

Eu sempre fui muito atento às ervas. Então, aquele negócio de você estar dentro do candomblé, “erva tal é de tal Nkisi”. Então, eu sempre tive essa preocupação de aprender que ervas eram essas e, consequentemente, se eu conseguia a muda, eu trazia para a minha casa e trago até hoje (…) Eu tenho uma grande quantidade de ervas aqui, justamente por isso, por conseguir e tentar, e tento, tento, digo tento porque a gente nunca está na cabeça das pessoas, para que eles possam continuar cultivando isso. É um legado que nós temos que manter, as folhas. Então, eu tento que ele preste atenção, que cuide, que não corte, que não destrua aquilo que nós temos. Nós precisamos a todo momento das ervas, isso é fundamental.

 

Foto: Luiz Lopes

O que o senhor tem entendido em relação às mudanças climáticas? O terreiro já enfrentou algum impacto ambiental?

É uma situação em que, hoje, o que percebo é que as mudanças estão acontecendo muito bruscas. Nada está dentro do tempo. No meu tempo de muzenza (iaô), tinha algumas coisas que se falavam “de tal tempo, a gente planta tal erva”, “dá uma atenção a tal erva”, “existe o tempo de poda”, “existe o tempo de colher determinadas ervas, determinadas frutas”. E hoje a gente não vê mais isso. Tudo está acontecendo muito rápido e eu acho que o tempo está mudando muito rápido. Então você não percebe quando é o quê. Então essas mudanças estão acontecendo muito. E automaticamente as ervas estão sofrendo bastante devido às mudanças climáticas mesmo. 

Antigamente você tinha determinadas ervas o ano inteiro. E hoje já não tem. Fica muito frio, ela não aguenta. Ou fica muito calor, ela não aguenta.

Então, tudo isso acaba afetando a casa de candomblé, sabendo que a gente tem sempre ervas suficientes para poder suprir as necessidades da gente. Mas é uma coisa que acaba influenciando, porque você lança a mão daquela erva (…) a gente acaba sofrendo influência por isso também.

Já passei alguns pedacinhos aqui dentro com esse rio (Paraíba do Sul). Tem uma específica, teve uma enchente aqui que eu, dentro da sala de candomblé ali, eu entrei com água no peito. Então, essa daí não tem como negar, você vê tudo aquilo que você sempre lutou para manter, você vê aquilo tudo virar de perna para o ar, porque não tem como você fazer para a água não entrar.

                                          Salão do Inzo Unsaba Ionene.
Foto: Luiz Lopes

 

O senhor entende o terreiro como um espaço importante para a natureza existir?

Com certeza, com certeza. Eu ainda penso o seguinte, se os terreiros terminarem, isso tudo também vai junto. Ninguém tem cuidados com as ervas, (mas) tem cuidado com plantas ornamentais. Eu vejo muito isso. Às vezes você vai à floricultura, é planta ornamental para tudo quanto é lado. Então é isso que eles têm muito cuidado… as ervas elas acabam sendo colocadas como não tem necessidade disso. As pessoas não olham aquilo como necessário. E aí com certeza os terreiros vão ter que manter suas tradições, manter as ervas dentro do terreiro. Então é muito importante para a sociedade. 

Nkisi e natureza são duas coisas que se alinham. E não tem Nkisi sem natureza, nem tem natureza sem Nkisi. Então, a gente tem sempre que agradecer a todos os momentos, a gratidão à Nzambi por nos dar essa maravilha que é a natureza, seja de que forma que ela seja. 

Se a gente não acredita naquilo que professamos, não tem porquê estar aqui.

Então, se professamos o Nkisi, o Orixá, o Vodum, o nome que queira dar, nós temos que professar a natureza, respeitar a natureza a cada momento, respeitar a natureza com aquilo que ela tem para nos oferecer. E para entendermos, nós temos que realmente interagir com a natureza. Para entender uma coisa, você tem que interagir com aquilo. Então, aí você consegue, de uma certa forma, dentro dos terreiros, passar essa necessidade que nós temos de respeitar. Respeitar tudo e a todos, a começar pela natureza. Essa educação, do meu ponto de vista, é só dentro dos terreiros mesmo. Dificilmente fora você vai encontrar isso.

Após esse bate papo, o senhor deseja deixar uma mensagem final para os leitores e seus filhos de santo? 

A minha mensagem é simples, amar a natureza acima de qualquer coisa. Nós dependemos do ar, nós dependemos do fogo, da água, das folhas. 

Então, se nós não respeitarmos isso, nós estamos desrespeitando a nossa própria ancestralidade, nossos próprios Jinkisi. 

Então, amar a natureza é fundamental, desde uma pequena pedra até mesmo uma labareda de fogo que está acontecendo ali. Mas temos que ter esse respeito e, para mantermos esse respeito, a gente começa educando dentro da casa. “Não pode ir assim, não suje ali.” Porque, infelizmente, o ser humano não consegue imaginar que aquilo que ele está fazendo hoje vai repercutir amanhã. 

A natureza sempre devolve com sabedoria, que a natureza tem, àqueles que praticam mal contra ela. 

Então, a gente sempre pede para que haja mais atenção a isso, para que dê mais atenção a isso e olhe a religião de matriz africana não somente como religião, mas como uma cultura do país. O país hoje é o que é, agradeça aos povos de matriz africana que aqui chegaram e fizeram esse país, um grande país.

Foto: Luiz Lopes

 


Luiz Lopes é nascido e criado na periferia de Duque de Caxias, graduando em Ciências Sociais pela UFRJ e atua em comunicação e pesquisa em projetos e ONGs socioambientais do Estado do Rio de Janeiro, em especial na Baixada Fluminense. Trabalha com as temáticas de mudanças climáticas, comunidades tradicionais e mobilização ambiental.

Maria e o Jardim que Deus a confiou

“O Senhor Deus colocou o homem no jardim do Éden para o cultivar e o guardar.” (Gênesis 2:15)


Dona Maria não vive no Éden, mas vive num bairro brasileiro que também é jardim — ainda que coberto de asfalto, com sombras raras e córregos esquecidos.

Ela é a vizinha “gente boa” que conhece todos da rua, viu as mudanças no cenário do bairro nos últimos anos, mas ainda se lembra de como as ruas eram mais frescas e os dias menos sufocantes quando se mudou para lá, quando seu filho ainda tinha árvores para brincar e ela costumava sentar numa sombra para conversar na frente de casa. Hoje, mais uma vez a caminho da feira, Maria atravessava a rua só para andar alguns metros na sombra da última árvore que ainda resistia no bairro. Ela também se lembra da comemoração dos vizinhos quando o asfalto chegou na sua rua, porém hoje sabe que logo com ele vieram as enchentes que invadiram sua casa, pois a terra já não conseguia mais beber a água da chuva.

Cada vez mais, aquele lugar parece ainda mais longe de qualquer paraíso — mas foi ali mesmo que Deus a colocou. Não por acaso, Deus tem o hábito de plantar gente em lugares que precisam florescer.

No grupo de oração de sua igreja, as dores de sua comunidade começaram a se repetir: a enchente que levou os móveis de uma família; a criança com bronquite por causa da fumaça; a idosa que desmaiou com a onda de calor; o preço alto da feira porque o clima estragou a colheita. Eram pedidos distintos, mas todos tinham uma raiz comum: os efeitos de um planeta em desequilíbrio. O que os jornais chamam de crise climática não afeta só os outros países. A crise do clima visita a nossa rua, senta no banco da igreja e vira motivo de oração.

No pequeno grupo, os irmãos discutiam sobre a criação e como Deus ordenou ao primeiro casal que cuidasse e cultivasse o jardim. Porém, foi ouvindo o pastor falar sobre ser sal e luz do mundo, que Dona Maria entendeu que a fé que acende o seu coração também é capaz de iluminar os caminhos do jardim em que ela morava. Naquele momento, ela percebeu que cuidar da criação de Deus é um ato de adoração, de amor ao próximo e de resistência ao egoísmo dos tempos modernos, onde quer que ela estivesse.

Maria sabia que, antigamente, fé e natureza não se separavam. As chuvas, as plantações, o sol e o vento eram sinais da presença de Deus em tal comunidade. A Criação era um testemunho vivo da glória divina, como diz o Salmo:
“Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras das suas mãos…” (Salmos 19:1)

Entretanto, ela ainda não entendia como nós deixamos tudo de lado para estar no centro de tudo e resolvemos usar o mundo, sem cuidar dele. Extrair, consumir, jogar fora. Se algo não é útil ou bonito, é descartado. Poucos se lembram de que fomos chamados para dominar sem ganância, mas para cultivar com amor. Para guardar o que Deus nos confiou.

Ela se questionava sobre Deus ter nos criado à sua imagem e semelhança, criadores por natureza, não consumidores como somos chamados em certas propagandas por aí.

Ouvindo uma de suas vizinhas, que falava em uma possibilidade de mudança, Dona Maria constatou que todos sonham com um bairro melhor, mas poucos entendem que talvez Deus os tenha chamado para melhorar o bairro onde estão. E foi assim que ela mesma começou a observar o bairro com novos olhos.

Com as mesmas mãos que servem o café na recepção do culto, Dona Maria começou a plantar novas ideias: proteger as árvores que sobraram e plantar novas para sombrear o caminho e cuidar do córrego perto de casa para evitar problemas com mau cheiro, doenças e enchentes. Em sua igreja local, ela organizou oficinas de reaproveitamento, mutirões de cuidado com a rua e a criação de hortas comunitárias. E fez tudo isso com a mesma fé com que ora e lê a Bíblia. Porque, para ela, fé e cuidado com a Terra são parte do mesmo chamado.

Participando das reuniões comunitárias, Maria percebeu que os problemas dos vizinhos eram iguais, portanto, coletivos, e juntando as pessoas, elas conseguiriam ajudar umas às outras a solucioná-los.

Juntos, eles tiveram a força e a organização necessária para melhorar o bairro e evitar problemas que conviviam há anos, pois finalmente entenderam que o bairro em que moram é um espaço de compartilhar, e não dividir, onde cada um tinha muito a contribuir, para que todos pudessem usufruir do que Deus lhes deu.

Tudo isso aconteceu porque Deus chamou Maria para cultivar e guardar o seu jardim, ela foi o sal — que conserva o que ainda pode ser salvo, e foi luz — para que outros também vissem o caminho. E por onde for, ela não cansava de dizer que : proteger o que o Senhor criou também é servir a Ele e ao nosso próximo. Pois onde há cuidado, o Éden pode recomeçar.


Nayane Cristina Ramos de Oliveira Lobo, 26 anos, protestante.

2025 Salvador / Cruz das Almas – BA
Graduanda em Arquitetura e Urbanismo pela UFBA.

O que a literatura de Clarice Lispector tem a dizer sobre ecologia?

Que mistério tem Clarice?
Caetano Veloso, Clarice


Parte da crítica literária não considerou o papel fundamental de outros viventes e da ecologia na obra de Clarice Lispector. Essa lacuna expressa um problema estrutural, pois, historicamente, existe uma cisão nas culturas ocidentais, uma espécie de dualismo que separa e inferioriza o não humano em detrimento do humano – gesto que não ocorre, por exemplo, nas culturas ameríndias e africanas. Porém, ao folhearmos os manuscritos clariceanos com atenção e uma escuta atenta, perceberemos a importância que a escritora dá à natureza, realizando uma espécie de ecoliteratura.

Uma outra questão que atravessa a literatura de Lispector é seu interesse pelo sagrado, pelo desconhecido, pela magia e misticismo. Além da sua origem judaica, Clarice tematiza e interpreta o cristianismo à sua maneira, dando títulos que se atrelam a essa religião para seus textos, como A paixão segundo G.H, Perdoando Deus e Viva crúcis. No entanto, o sagrado, na perspectiva clariceana, se encontra no cotidiano, nos fenômenos naturais: “Tenho pouco a dizer para uma plateia exigente. Mas vou dizer uma coisa: para mim, o que quer que exista, existe por algum tipo de mágica. Além disso, os fenômenos naturais são mais mágicos do que os sobrenaturais”. Essas palavras foram escritas para uma Conferência de Bruxaria na Colômbia, em 1976, intitulada “Literatura e magia”, no qual Clarice fez uma associação com uma tempestade que havia ocorrido há cerca de dois meses no Rio de Janeiro.

Existe na obra de Lispector um grande encontro entre as alteridades humanas e não humanas, que se expressa a partir da ideia de acontecimento, como uma epifania, um encontro divino e transformador, que muda toda a rota, como é o caso da experiência da personagem G.H. com a barata, que se dá num gesto de abertura para o outro, uma abertura para o mundo animal, bem como a vivência com o mundo vegetal da personagem Ana no conto “Amor”, tendo como cenário o jardim botânico do Rio de Janeiro que, inclusive, aparece em outras crônicas, tal como Um ato gratuito: “Eu ia no jardim botânico para quê? Só para olhar. Só para ver. Só para sentir. Só para viver” (Lispector, 2020, p. 528). Podemos notar o prazer, o cuidado e uma certa familiarização com a natureza, assim como a experiência sagrada vivida no cotidiano, o sobrenatural se revelando naquilo que é da ordem do natural, do corriqueiro.

Em Clarice Lispector, o humano e não humano se entrelaçam ou se “intertrocam”, conforme menciona Evando Nascimento (2021). A natureza na obra clariceana não é tratada simplesmente como um pano de fundo, mas como parte integrante e fundamental da experiência sensível e existencial de suas personagens. O texto clariceano revela uma ecologia sutil, ultrapassando a abordagem ambiental tradicional, aproximando-se de uma poética da relação – para falar nos termos de Édouard Glissant (2021). Há, portanto, uma espécie de comungar com vegetais, bichos e outros seres viventes e não viventes, que convoca uma partilha e um viver junto. Comungar é também amar os outros, sendo esta uma das três coisas na qual Clarice afirma ter nascido em sua crônica “As três experiências”, publicada em 11 de maio de 1968 no Jornal do Brasil.

Lispector é um tipo de escritora que tem estima pelo pequeno, pelo imperceptível, e isso se mostra de diversas formas: nas personagens mulheres (a nordestina Macabéa; mães; professoras), na criança, nos animais, nos vegetais e tudo o que aparentemente não se enquadra no estatuto do ser. Clarice dá voz a quem não costuma ser ouvido, trazendo aqueles que costumam chegar depois. A alteridade de Clarice é radical, sendo uma escritora que afirma todo outro que se achega.

Outros textos esboçam essa alteridade radical, tal como a crônica Bichos, no qual Lispector lista e comenta sobre vários tipos de animais, além de O búfalo de Laços de Família, O ovo e a galinha, A quinta história, Onde estivestes de noite, Um sopro de vida, Água viva. Segundo Evando Nascimento (2012), todas esses manuscritos citados “ficcionalizaram certo não humano não como aquilo que ameaça o homem, mas, ao contrário, contribui para o ultrapasse das barreiras impostas pela civilização dita ocidental no avançado estágio de seu desenvolvimento tecnológico” (Nascimento, 2012, p. 25)

Portanto, não se trata de estabelecer a antiga oposição para com os outros animais e seres viventes, e ainda, não se trata de simplesmente estudar o comportamento dos bichos como em outras áreas do conhecimento, tal como a biologia ou zoologia, mas sim se trata de estar aberto às alteridades, de experimentar o ser-outro, ou, em termos deleuzianos, “o devir-outro”, nomeado por Evando Nascimento (2012) como “tornar-se outro”. Outrar-se, conforme a poesia de Fernando Pessoa. A literatura de Clarice Lispector tem muito a nos dizer, sim, sobre ecologia, sobretudo, no que se refere às relações entre fé e clima, ao incluir esses assuntos em sua obra e torná-los importantes questões a serem pensadas e discutidas – sejam no âmbito religioso ou literário –, inspirando a cultura contemporânea a seguir expandindo, acolhendo, cuidando desta Casa Comum e rompendo fronteiras.

Referências

GLISSANT, Édouard. Poética da relação. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2021.

LISPECTOR, Clarice. Outros escritos. Rio de Janeiro: Rocco, 2005.

ISPECTOR, Clarice. A paixão segundo G.H. Rio de Janeiro: Rocco, 2020.

LISPECTOR, Clarice. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 2020.

NASCIMENTO, Evando. Clarice Lispector: Uma literatura pensante. Rio de Janeiro:
Civilização Brasiliense, 2012.

NASCIMENTO, Evando. Clarice e as plantas: a poética e a estética das sensitivas. In:
Quanto ao futuro: Clarice. Org. Júlio Diniz. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2021.

 


Quésia Olanda é carioca, moradora de Nova Iguaçu, na baixada fluminense. É poeta e professora. Doutoranda em História da Filosofia (PPGF/UFRJ). Mestra em Estética e Filosofia da Arte (UERJ). Graduada em Filosofia (UFRRJ).

Vigílias pela Terra no Rio de Janeiro: encontro inter-religioso e cultural em defesa do meio ambiente

A mobilização é uma iniciativa do Instituto de Estudos da Religião (ISER) que une espiritualidade, arte e justiça climática


Centenas de pessoas entre lideranças religiosas, artistas, movimentos sociais, ambientalistas, representantes dos povos originários e comunidades de fé participaram do evento Vigílias pela Terra, no Largo da Candelária, Centro do Rio, no último sábado de agosto (30). O encontro promoveu shows artísticos, manifestações em diálogo inter-religioso, feira gastronômica e espaço infantil com oficina de argila e sementes. A iniciativa Vigílias pela Terra viabiliza articulações e sensibilização a partir de diferentes grupos religiosos para fortalecer ações no enfrentamento à crise climática. O evento é uma mobilização inter-religiosa, promovida pelo Instituto de Estudos da Religião (ISER) em interlocução com vários parceiros que une espiritualidade, arte e cultura em defesa do meio ambiente. 

Uma parte destacada da Vigília foi a manifestação chamada ‘Vozes pela Terra’ marcada pela participação de diversas tradições religiosas e espirituais, como lideranças indígenas, pastores, padres, lideranças de religiões de matriz africana, do judaísmo, islamismo, budismo, Santo Daime, wicca e muito mais. Diferentes vozes ocupando um espaço público, unidas em defesa do meio ambiente, reforçando a importância do diálogo inter-religioso para uma sociedade democrática e plural. Em tempos de intensificação da crise climática e conflitos ideológicos, inclusive de intolerância religiosa, o diálogo, união e ação em torno de justiça climática e direitos humanos são fundamentais.  

Estiveram presentes lideranças indígenas e religiosas como Marize Guarani (indígena), pastora Viviane Costa (evangélica), Padre Ricardo Resende (católico), Dom Roberto Ferreria Paz (católico), Mãe Flávia Pinto (umbanda), Pastor Vladimir Oliveira (evangélico), Augusto Zimbres (Brahma Kumaris), Patricia Tolmasquim (judaísmo), Babalawô Ivanir dos Santos (candomblé), Reverenda Lusmarina Campos Garcia (luterana), Sheik Adam Muhamad (Islã), Sacerdote Og Sperle (Wicca), Irmã Maria das Graças Rodrigues (catolicismo), Edvaldo Roberto de Oliveira (espírita), Raga Bhumi (Hare Krishna), Maira Fernandes (Budismo), Bárbara Athamis (Xamanismo), Reverendo Daniel Rangel (anglicano), Babalorixá Joaquim de Ogum (candomblé).

A Vigília Pela Terra une espiritualidade, música, arte, cultura e diversas vozes de diferentes gerações que ampliam o debate e reforçam a importância da união nesta luta comum em defesa da Terra e toda natureza.

O evento também teve shows de artistas como Xangai, Jonathan Ferr, Jongo da Serrinha, Bela Ciavatta, Doralyce, Kiko Horta, Edgar Duvivier, Olivia Byington, Ana Bispo, Júlia Vargas, Coral Guarani, Kaê Guajajara, Hugo Ojuara e Kiko Horta, acompanhados pelo banda Bondesom.

A diretora executiva do ISER Ana Carolina Evangelista reforça que a Vigília pela Terra reflete a importância da mobilização e proteção ambiental a partir da articulação de diferentes grupos de fé. “Os grupos de fé, a partir das suas vertentes, livros sagrados, crenças, são originalmente protetores da casa comum, da natureza, da Terra. É muito importante ter representantes dos grupos religiosos como aliados na proteção ambiental e na sensibilização da população”, afirma. 

Em 1992, o ISER promoveu a primeira vigília inter-religiosa ‘Um Novo Dia para a Terra’, no Aterro do Flamengo. Mais de 30 mil pessoas se uniram para dar o grito em defesa da Terra, entre elas lideranças religiosas como Dalai Lama (budismo), Dom Helder Câmara (catolicismo) e Mãe Beata de Iemanjá (religiões de matriz africana). A mobilização, realizada durante a ECO-92, deu origem ao Movimento Inter-Religioso (MIR-RJ) e resultou no documentário ‘Uma Noite Pela Terra’, disponível no canal do Youtube do ISER. 

33 anos depois, o ISER segue acreditando na importância do diálogo inter-religioso para fortalecer iniciativas em defesa do meio ambiente e contribuir com uma sociedade mais justa e democrática

Neste ano, as Vigílias pela Terra serão realizadas nas cinco regiões do Brasil. A mobilização teve início em abril, no ato de abertura do Acampamento Terra Livre (ATL), em Brasília, e seguiu para Porto Alegre, numa vigília às margens do Guaíba. O evento também foi realizado em Manaus, em frente ao Teatro Amazonas, e seguirá para Natal (13/09) e Recife (11/10). A culminância desse percurso será uma vigília de múltiplas tradições espirituais e sociais durante a COP 30, em Belém, que ocorrerá no âmbito do Tapiri Ecumênico e Inter-religioso COP 30, no dia 13 de novembro.  

Em 2025, a 30ª edição da COP do Clima será realizada pela primeira vez no Brasil, em Belém do Pará, na Amazônia brasileira. A conferência reunirá líderes mundiais, cientistas, organizações não governamentais e representantes da sociedade civil para discutir ações que combatam as mudanças climáticas, proponham políticas públicas de justiça climática, apresentem inovações tecnológicas e de financiamento para adaptação e mitigação dessa crise e mais. Vigílias pela Terra é uma ação inter-religiosa rumo à COP 30.

Vigílias pela Terra: evento inter-religioso pela COP 30 acontece no Largo da Candelária

Mobilização reúne lideranças religiosas, ambientalistas, movimentos sociais e shows artísticos para fortalecer ações no enfrentamento à crise climática


No dia 30 de agosto, o Largo da Candelária, centro do Rio de Janeiro, será palco do evento Vigílias pela Terra, uma mobilização inter-religiosa promovida pelo Instituto de Estudos da Religião (ISER), em parceria com diversas comunidades e organizações da sociedade civil. O evento tem como objetivo promover articulação a partir de grupos religiosos diversos para fortalecer ações no enfrentamento à crise climática. A mobilização reunirá diversas lideranças religiosas, movimentos sociais, coletivos, artistas, pessoas e comunidades de fé, em diferentes regiões pelo Brasil ao longo dos próximos três meses para celebrações inter-religiosas em defesa da Terra. A culminância desse percurso será uma vigília de múltiplas tradições espirituais e sociais durante a COP 30, em Belém, que ocorrerá no âmbito do Tapiri Ecumênico e Inter-religioso COP 30. O evento do Rio será gratuito e começa a partir das 15h.

A mobilização une espiritualidades, cultura e ação por justiça climática. O encontro terá apresentações artísticas de Jongo da Serrinha, Kaê Guajajara, Xangai, Jonathan Ferr, Coral Guarani da Aldeia de Mata Bonita, Ana Bispo, Bela Ciavatta, Doralyce, Hugo Ojuara, Matriarcado de Oya, Edgar Duvivier, Olivia Byington, entre outras vozes.

A Vigílias pela Terra marca 33 anos da primeira Vigília Inter-religiosa ‘Um Novo Dia para a Terra’, realizada pelo ISER, durante a ECO-92, no Aterro do Flamengo, quando 30 mil pessoas estiveram presentes, entre elas lideranças religiosas como Dalai Lama, Dom Helder Câmara e Mãe Beata de Iemanjá. A mobilização deu origem ao Movimento Inter-Religioso (MIR-RJ) e resultou no documentário ‘Uma Noite Pela Terra’, disponível no canal do Youtube do ISER.

Desta vez, as Vigílias pela Terra acontecem nas cinco regiões do Brasil. A mobilização teve início em abril, no ato de abertura do Acampamento Terra Livre (ATL), em Brasília, e seguiu para Porto Alegre. O evento também será realizado em Manaus (06/09), Natal (13/09), Recife (11/10) e o último encontro será em Belém, na COP 30, no dia 13 de novembro, no âmbito do Tapiri Ecumênico e Inter-religioso COP 30.

O Diretor Adjunto do ISER Clemir Fernandes, entende ser fundamental que as religiões façam parte do enfrentamento à crise climática a partir de suas próprias práticas de fé. “Em 1992 a vigília foi um diferencial político e espiritual na luta ambiental. Mais de três décadas depois, as religiões e tradições espirituais podem aportar um despertamento ético fundamental para que tomadores de decisão sejam ousados e eficazes no cumprimento de metas para interromper a curva ascendente da grave crise climática atual”, reforça.

Para a Coordenadora de Meio Ambiente e Religião do ISER Isabel Pereira, a COP 30 vem sendo considerada um marco mundial fundamental para o enfrentamento da crescente crise climática. “Apesar das limitações dos avanços por meio das negociações durante a conferência, temos a oportunidade de fazer o tema chegar a mais pessoas. A população precisa estar convencida da necessidade de enfrentar esta crise e do potencial transformador que sua mobilização pode causar neste cenário, especialmente considerando seus territórios e agendas locais”, pondera.

Em 2025, a 30ª edição da COP do Clima será realizada pela primeira vez no Brasil, em Belém do Pará, na Amazônia brasileira. A conferência reunirá líderes mundiais, cientistas, organizações não governamentais e representantes da sociedade civil para discutir ações que combatam as mudanças climáticas, proponham políticas públicas de justiça climática, apresentem inovações tecnológicas e de financiamento para adaptação e mitigação dessa crise e mais. Vigílias pela Terra é uma ação inter-religiosa rumo à COP 30.

SERVIÇO

Vigílias Pela Terra
Data: 30 de agosto
Local: Largo da Candelária – Rio de Janeiro (RJ)
Horário: A partir das 15h

[CONVITE] Vigílias pela Terra – 30 de agosto no Rio de Janeiro

Unindo vozes diversas em ação pelo meio ambiente


Olá! Como vai?

Temos um convite especial para você!

No dia 30 de agosto, às 15h, o Largo da Candelária, será palco de um encontro que une espiritualidades, cultura e justiça climática: a Vigílias pela Terra, uma mobilização inter-religiosa promovida pelo ISER. 

Inspirada por uma história que começou há 33 anos, quando o ISER realizou a primeira Vigília Inter-religiosa, durante a ECO-92, e nomes como Dalai Lama, Dom Helder Câmara e Mãe Beata de Iemanjá estiveram presentes reafirmando que cuidar da Terra é também um ato de fé. Após todos esses anos, seguimos escrevendo essa história com esperança de viver em uma sociedade mais sustentável.

Com a intensificação da crise climática, reforçamos a importância de nos unirmos. Nossa mobilização reunirá diversas lideranças religiosas, movimentos sociais, ambientalistas, coletivos, ativistas e comunidades de fé para fortalecer ações que promovam a justiça climática.

No palco, teremos apresentações artísticas de Jongo da Serrinha, Kaê Guajajara, Xangai, Coral Guarani da Aldeia de Mata Bonita, Ana Bispo, Bela Ciavatta, Doralyce, Hugo Ojuara, Edgar Duvivier, Olivia Byington e muitas outras vozes.

Nossa caminhada com a Vigília pela Terra teve início em abril, no ato de lançamento durante o Acampamento Terra Livre (ATL), em Brasília, seguiu para Porto Alegre e a próxima parada será no Rio de Janeiro. Também passaremos por Manaus (06/09), Natal (13/09) e Recife (11/10). A culminância desse percurso será uma vigília de múltiplas tradições espirituais e sociais durante a COP 30, em Belém, no dia 13 de novembro, no âmbito do Tapiri Ecumênico e Inter-religioso COP 30

Estamos diante de um momento decisivo. A crise climática não é mais um alerta e o Brasil se prepara para sediar, pela primeira vez, a COP 30. É tempo de luta, diálogo e ação. 

Junte-se a nós nesta mobilização em defesa da Terra! Vamos nessa?

Esperamos você!

SERVIÇO:

Endereço: Largo da Candelária – Centro do Rio de Janeiro
Data: 30 de Agosto
Horário: 15h

Vigils for the Earth

 

In May 2025, the Institute of Studies on Religion (ISER) launched the ‘Vigils for the Earth’ movement towards COP 30. The mobilization will bring together various religious leaders, representatives of indigenous peoples and traditional communities, social movements, activists, and faith communities in different regions of Brazil throughout the year for inter-religious celebrations in defense of the Earth. 

The primary goal of the Vigils movement is to promote dialogue and collaboration among different religious groups to strengthen their actions in addressing the climate crisis. This journey will culminate during COP 30 in Belém with a vigil involving multiple spiritual and social traditions, which will take place as part of the Ecumenical and Inter-religious Tapiri COP 30.

The movement began with a symbolic act at the Acampamento Terra Livre (ATL), the largest Indigenous mobilization in Brazil, held in Brasília in April. At this event, religious leaders affirmed the importance of guaranteeing Indigenous rights and stated that religions should play a role in standing up for the respect of these rights.

The first Vigil for the Earth was held in May in Porto Alegre, a city in the South Region of Brazil, which suffered immense damage last year due to floods that impacted many areas throughout the State of Rio Grande do Sul. The next Vigils will take place in the following cities: Rio de Janeiro, Manaus, Natal, and Recife.

Historical Background of the “Vigils for the Earth”

Thirty-three years ago, on June 4, 1992, ISER and the Movimento Inter-religioso (MIR – Interfaith Movement) brought together more than 30,000 people from different faith traditions to promote the Interfaith Vigil ‘A New Day for Earth’ in defense of the environment. The gathering took place in Rio de Janeiro while the city was hosting the United Nations Conference on Environment and Development (Rio-92). Now, in 2025, Brazil is once again taking on a major mission: hosting COP 30, the United Nations Conference on Climate Change.

In a context of intensified climate change effects, it is essential to promote actions, debates, and partnerships in favor of socio-environmental justice. More than 30 years have passed, but ISER remains inspired by the hope for a more just, collaborative, and sustainable society, where the climate agenda is prioritized, including by religious communities. In the year of COP 30 in Brazil, there is an added urgency to broaden awareness of the climate crisis and engage as many people as possible in the fight for socio-environmental justice. Inter-religious dialogue in the affirmation of rights is, for us, a fundamental part of this challenge.

Qual a importância dos grupos de fé no enfrentamento à crise climática?

Em um ano marcado por uma das mais importantes conferências sobre o clima — a Conferência das Partes (COP) —, que ocorrerá no Brasil, em Belém do Pará, crescem as expectativas em torno desta edição. Ela não apenas marca os 10 anos do Acordo de Paris, um dos tratados mais relevantes no enfrentamento às mudanças climáticas, como também será a primeira vez que a Amazônia recebe a COP da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima. 

A presidência da COP 30 no Brasil tem trazido, em suas cartas abertas à sociedade, um termo de difícil tradução para quem não é brasileiro: “mutirão”. Esse termo expressa um esforço coletivo em prol de um objetivo comum, uma convocação de pessoas com diferentes habilidades, reunidas para alcançar algo maior, que sozinho ninguém seria capaz de realizar. 

Mas quem são esses atores? E para quem esses esforços globais devem ser direcionados? 

Dentro dessa perspectiva de um mutirão global contra as mudanças climáticas, é fundamental compreender que absolutamente ninguém deve ficar de fora — tanto no sentido de colaborar, quanto no de ser contemplado, protegido e incluído pelas políticas e decisões climáticas. Isso é especialmente verdadeiro para grupos historicamente vulnerabilizados, que menos contribuíram para a crise, mas que estão entre os mais afetados por ela: povos indígenas, afrodescendentes, mulheres e outras populações marginalizadas

Em um cenário de emergência climática, são esses corpos-territórios que enfrentam as consequências mais severas e, muitas vezes, irreversíveis de um planeta em desequilíbrio. São eles que, infelizmente, são empurrados para as trincheiras, para morrerem primeiro. 

O esforço coletivo para enfrentar essa crise é um desafio imenso para toda a humanidade. E, embora dentro desse mutirão muitas respostas venham da ciência e da política — geralmente estruturadas a partir de uma lógica ocidental e hegemônica —, existem também outras forças, muitas vezes invisibilizadas, que partem da espiritualidade, da fé e dos saberes ancestrais. 

Essas forças desempenham um papel essencial no enfrentamento à crise climática. Elas mobilizam consciências, fortalecem vínculos comunitários e cultivam uma ética do cuidado, do bem viver e do bem comum. Por isso, é urgente que nos reconheçamos também como parte legítima desse processo, trazendo para o centro dos debates e das decisões nossas filosofias de cuidado, nossos conhecimentos ancestrais e espirituais — que são, sim, formas de ciência —, e que devem ser considerados como tal. 

Falo desse lugar enquanto uma pessoa de fé, umbandista, de tradição afroindígena. E estendo essa reflexão à toda comunidade religiosa e espiritual, especialmente às minhas irmãs e irmãos que carregam, em seus corpos e histórias, a força da ancestralidade dos pretos-velhos, voduns, orixás, inkices, caboclos e encantados. Somos povos que

mantêm uma relação íntima e indissociável com a natureza, porque é dela que vêm nossos caminhos, nossa força e nossa própria existência. 

Como bem ensina o escritor e filósofo indígena Ailton Krenak, em Ideias para adiar o fim do mundo

“Tudo é natureza. O cosmo é natureza. Tudo o que eu consigo pensar é natureza.” 

Para nós, povos de terreiro e de tradição africana, não é diferente. O cuidado com o ambiente — que não é “meio”, mas o todo — é cuidado com a própria vida. A água, a mata, a terra e todos os elementos são sagrados. Afinal, sem folha não existe culto, não existe axé, não existe vida, não existe ancestralidade. 

Diante da enorme tarefa que é frear as mudanças climáticas, é urgente refletir sobre quais impactos e quais legados esta COP deixará para as comunidades locais e globais. É preciso compreender que, além das respostas técnicas, dos acordos e tratados, também é necessária uma resposta ética, espiritual e comunitária. 

A crise climática não é apenas uma crise ambiental — ela é uma crise de direitos, uma crise civilizatória. E seu enfrentamento passa, necessariamente, pela eliminação das desigualdades, do racismo, da LGBTfobia, da violência de gênero e do apagamento dos nossos corpos-territórios. 

Sem justiça, não há solução climática. Sem espiritualidade, não há cura possível para a ferida que se abriu entre humanidade e natureza.

Por: Alex Soares

 

Alex é paraense, de Belém e cria de Icoaraci. Bacharel em Direito, pós-graduando em gênero e sexualidade – UFPA e Direito e governança climática – UFBA. Membro da Liga Acadêmica de Cuidados Integrais à Diversidade Sexual e de Gênero – LACIGS. Analista de agenda política na palmaresLab. Trabalha com as temáticas de justiça climática, social, Gênero e sexualidade.