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COP 30 no Brasil: um novo capítulo na agenda climática global

A diplomacia brasileira pode atuar para que a ausência dos EUA não seja um retrocesso? | Entrevista com Diosmar Filho



Em janeiro de 2025, assim que tomou posse, o presidente dos EUA Donald Trump, assinou um decreto retirando o país do Acordo Climático de Paris. Apesar de já ter retirado os EUA do compromisso internacional em seu primeiro mandato, a decisão causou grandes debates acerca da temática sobre negociações e mudanças climáticas.

Os EUA têm historicamente resistido a avanços na agenda de adaptação climática, o que pode impactar negativamente os esforços globais para proteger as populações mais vulneráveis aos efeitos das mudanças climáticas. Diante desse cenário, a Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP 30), que será realizada em novembro, pela primeira vez no Brasil, surge como uma oportunidade crucial para avançar na agenda de adaptação climática e engajar economias emergentes e países em desenvolvimento.

O geógrafo e pesquisador sênior da Associação de Pesquisa Iyaleta Diosmar Filho, traz uma análise sobre a retirada dos EUA do Acordo de Paris no ano da COP 30 para além das reações alarmistas. “Temos uma agenda super sensível para a COP 30 no Brasil, chama-se artigo 7: adaptação climática. Se a gente conseguir colocar as economias emergentes e os países em desenvolvimento nessa agenda para aprovar os objetivos global e ampliar o financiamento nessa agenda, a COP 30 no Brasil cumpre seu papel com muita força”, explica. 

O pesquisador também aponta o potencial da diplomacia brasileira na condução das negociações e na busca por soluções que garantam um futuro sustentável para todos. “Eu acredito muito na diplomacia brasileira. Eu acho que é uma das melhores diplomacias no mundo e na negociação climática. Acredito que o Brasil está muito preparado para esse ciclo com o Donald Trump”, afirma Diosmar que acredita que a diplomacia é vista como competente e capaz de lidar com a ausência dos EUA no Acordo de Paris durante a COP. 

A agenda climática global tem priorizado a mitigação das emissões em detrimento da adaptação aos impactos das mudanças climáticas e do apoio às populações vulneráveis. Historicamente os EUA não apoiaram a agenda de adaptação. “A agenda climática em si, até este ano, girou em torno da mitigação e em torno da economia, ela não girou em torno de cuidar da população vulnerável no mundo à mudanças climáticas”, pondera o geógrafo. 

Mesmo sem a participação do governo americano, a COP 30 no Brasil surge como um momento estratégico para avançar na agenda de adaptação e engajar diversos setores como a sociedade estadunidense, os governos locais e outros atores buscando o financiamento necessário para os países mais vulneráveis a fim de garantir um futuro sustentável.

EUA se retira do Acordo de Paris… pela segunda vez

Como esperado após os resultados das eleições presidenciais dos EUA no ano passado, o segundo governo de Donald Trump começou trazendo apreensão em diversos setores. O polêmico discurso de posse trouxe a promessa de uma entrada dos Estados Unidos numa nova “era de ouro”, regada, é claro, à bastante exploração de combustíveis fósseis e com o anúncio do encerramento imediato de políticas de promoção de equidade baseadas em raça e gênero. Logo em seu primeiro dia de mandato, Trump formalizou a retirada dos EUA do Acordo de Paris, feito já realizado pelo mesmo em seu mandato anterior (2017 – 2020) e que havia sido revertido por Biden (2021 – 2024) . 

Mas o que é o acordo de Paris?

Assinado em 2015, durante a 21° Conferência das Partes sobre o Clima, o Acordo de Paris é um tratado internacional que tem como seu principal objetivo limitar a elevação da temperatura média global da Terra abaixo de 2°C, idealmente em 1,5°C. Ele é tido como um grande marco das negociações climáticas internacionais, pois conseguiu que todos os países o ratificassem com exceção de Síria e Nicarágua, esse último país aderiu posteriormente ao acordo. Além de estabelecer que cada país apresente suas NDCs (sigla em inglês para Contribuições Nacionalmente Determinadas) que, na prática, são as metas para redução das emissões de gases de efeito estufa (GEE).

Possíveis desdobramentos

Apesar dos estadunidenses terem um conhecido histórico de provocarem “entraves” nas negociações climáticas e, sob o comando de Trump, é bastante provável que isso seja cada vez mais comum, portanto, esperado. A saída de qualquer uma das partes que tenha ratificado o Acordo de Paris é sempre um prejuízo. O que ganha um contorno ainda mais expressivo se tratando dos Estados Unidos, um dos maiores emissores de gases de efeito estufa do mundo. Apesar de ainda ser cedo para dimensionar o impacto desta decisão na comunidade internacional, há temores de que a decisão americana encoraje outros países a fazerem o mesmo. O que seria, sem dúvida, uma grande tragédia e o fim de qualquer esperança de limitar o aquecimento global.

O que está em jogo?

Em pleno 2025, tendo sido as últimas décadas marcadas por incontáveis desastres ambientais e com tantos outros em curso, como, por exemplo,  os incêndios florestais que o próprio Estados Unidos enfrenta, é execrável que o chefe de uma nação adote uma medida desta natureza. Não só Trump, mas todos os líderes mundiais que insistem em ignorar o ignorável estão marchando não só com o seu povo, mas com o planeta inteiro para um grande abismo climático. A pergunta mais importante a se fazer neste momento é como a comunidade internacional reage a isso, pois Trump não é o primeiro, e infelizmente, não será o último negacionista climático com o poder nas mãos. 

 

Por: Sharah Luciano
Coordenadora de Formações Fé no Clima

Eleições 2024 e a pauta clima: o que esperar a partir dos resultados do 1° turno

Em 6 de outubro brasileiros e brasileiras de 5.569 cidades foram às urnas para escolher seus representantes municipais. Dos 155.912.680 milhões de eleitores aptos a votar, 78,29% compareceram aos seus locais de votação. A marca de 21,71% de abstenções manteve a tendência média registrada nos pleitos anteriores.

No cenário de 2024, no qual os efeitos da emergência climática têm sido cada vez mais intensos e recorrentes, a pauta “clima” tem crescido no debate público e, consequentemente, aparecido nas propostas eleitorais das candidaturas. Ainda que as questões climáticas estejam longe de ser as propostas centrais da maioria das campanhas e dos fatores primordiais que direcionam a escolha dos representantes pelos eleitores, é notável a relevância que o tema vem ganhando.

Por que o legislativo e executivo municipal são importantes nesse debate?

Embora os efeitos da emergência do clima sejam globais e a estratégia nacional para lidar com eles elenque responsabilidades distintas para os três níveis de governo, a administração pública municipal detém tarefas tão fundamentais quanto a dos outros níveis.

São atribuições do chefe do executivo da cidade: planejar e executar os planos e políticas públicas, elaborar o orçamento, sancionar ou vetar leis, além de ser o principal canal de interlocução do município com a esfera estadual e federal. Ao passo que, é papel da vereança propor leis, fiscalizar a gestão do prefeito(a) com relação à implementação dos planos e programas, bem como no cumprimento do orçamento público.

Logo, está sob a gerência das autoridades do município uma série de políticas que contribuem para uma ação climática positiva. Entre elas as de adaptação climática, importantíssimas para a resiliência das cidades, como por exemplo: a implantação ou implementação de uma secretaria municipal de clima, do plano municipal de adaptação climática, da criação ou atualização do plano diretor do município, o fortalecimento da Defesa Civil através da destinação de orçamento, a promoção da educação climática nas escolas e a gestão da política de saneamento básico.

Panorama nas capitais: disputas concluídas no primeiro turno

11 das 26 capitais em disputa já elegeram no primeiro turno seus representantes, 10 deles tendo sido reeleitos. Dentre as candidaturas vencedoras não há nenhuma mulher e nenhum partido de esquerda. E 8, dos 11 agora eleitos, se autodeclaram brancos.

Analisando os planos de governos divulgados pelas candidaturas, todos, exceto o da candidatura vencedora de Teresina-PI, propõem um eixo específico de ação com propostas de viés ambiental / mudança climática / sustentabilidade, ainda que destoem no nível de profundidade com as quais estas temáticas são expostas. Dentre os planos que apresentam propostas mais generalistas há uma tendência em “fomentar/fortalecer” ações  focadas principalmente em reciclagem e educação ambiental, desconsiderando, por exemplo, outras áreas fundamentais: como ações estruturais de mitigação e adaptação climática.  No geral, até mesmo os planos que elencam ações mais robustas e específicas, em sua maioria apresentam propostas focadas na implantação de instrumentos como planos de arborização / mitigação, mas sem que haja uma objetividade com relação a implementação dos mesmos ou a mensuração dos compromissos firmados.

No que se refere às propostas gerais dos planos de governo disponíveis no site do TSE, identifica-se (1) planos que propõem ações generalistas, não mensuráveis e insuficientes; (2) planos que propõem ações específicas e mensuráveis, mas ainda sim insuficientes, (3) planos que propõem ações específicas, mas que dependem de outras ações não elencadas para serem implementadas.

 

Capitais que já elegeram seus representantes
Capital Prefeito eleito no 1° turno Apresenta algum eixo específico com propostas de ação para questões ambientais ou climáticas? Observações sobre o plano com relação a ações de enfrentamento à emergência climática:
Boa Vista – RR Arthur Henrique (MDB) Sim (1) ações generalistas, não mensuráveis e insuficientes
Florianópolis – SC Topázio (PSD) Sim (1) ações generalistas, não mensuráveis e insuficientes
Macapá – AP Dr. Furlan (MDB) Sim (3) ações específicas, mas que dependem de outras ações não elencadas para serem implementadas.
Maceió – AL JHC (PL) Sim (1) ações generalistas, não mensuráveis e insuficientes

(3) propõe ação específica, mas que depende de outras ações não elencadas para ser implementadas.

Recife – PE João Campos (PSB) Sim (1) ações generalistas, não mensuráveis e insuficientes

(3) algumas ações específicas, mas que dependem de outras ações não elencadas para serem implementadas.

Rio Branco – AC Tião Bocalom (PL) Sim (1) ações generalistas, não mensuráveis e insuficientes

(3) algumas ações específicas, mas que dependem de outras ações não elencadas para serem implementadas.

Rio de Janeiro – RJ Eduardo Paes (PSD) Sim (3) algumas ações específicas, mas que dependem de outras ações não elencadas para serem implementadas.
Salvador – BA Bruno Reis (UNIÃO) Sim (1) ações generalistas, não mensuráveis e insuficientes

(2) ações específicas e mensuráveis, mas ainda sim insuficientes

(3) ações específicas, mas que dependem de outras ações não elencadas para serem implementadas.

São Luís – MA Eduardo Braide (PSD) Sim (3) ações específicas, mas que dependem de outras ações não elencadas para serem implementadas.
Teresina – PI Silvio Mendes (UNIÃO) Não* (1) ações generalistas, não mensuráveis e insuficientes
Vitória – ES Lorenzo Pasolini (Republicanos) Sim* (1) ações generalistas, não mensuráveis e insuficientes

(3) ações específicas, mas que dependem de outras ações não elencadas para serem implementadas.

* O plano apresenta ações com desdobramento ambiental / climático, mas em outros eixos que não o de meio ambiente/ clima /sutentabilidade.

Disputa do 2° turno: capitais em destaque


Nas outras 15 capitais onde a disputa pela vaga prefeito/a foi para o 2° turno, duas delas, em termos de desdobramento da pauta de meio ambiente e clima, requerem atenção: Porto Alegre (RS) e Belém (PA).

Capitais com disputa no 2° turno: (Aracaju (SE), Curitiba (PR), Natal (RN), Belém (PA), Fortaleza (CE), Palmas (TO), Belo Horizonte (MG), Goiânia (GO), Porto Alegre (RS), Campo Grande (MS), João Pessoa (PB), Porto Velho (RO), Cuiabá (MT) Manaus (AM), São Paulo (SP)

A capital do Rio Grande do Sul, que recentemente protagonizou uma das maiores tragédias climáticas do Brasil e a maior da sua história, levou para o 2° turno Maria do Rosário (PT) e Sebastião Melo (MDB). Melo, que é o atual prefeito de Porto Alegre, obteve 49,72% e por pouco não findou a disputa no turno anterior. Uma vitória de Melo durante o segundo turno, representaria que para o eleitorado porto-alegrense a atuação contestável que o prefeito realizou na gestão da crise não foi determinante na hora da escolha eleitoral.

No norte do país, em Belém – PA, a disputa pela prefeitura está entre Igor Normando (MDB) e Éder Mauro (PL). Apesar de ambos os candidatos mencionarem em algum grau a temática ambiental em suas propostas, as legendas as quais representam têm um histórico de posicionamentos conservadores com relação à pauta socioambiental. É válido ressaltar que em 2025 a capital paraense sediará a Conferência das Partes sobre Mudança do Clima da ONU e o chefe do executivo municipal tem um papel bastante relevante nesse contexto.

Por Sharah Luciano, Fé no Clima.

Referências:

https://www.tse.jus.br/comunicacao/noticias/2024/Outubro/presidente-do-tse-apresenta-balanco-do-1o-turno-das-eleicoes-2024

https://www.canalsaude.fiocruz.br/canal/videoAberto/mudancas-climaticas-e-cidades-sbcm-0018

https://fase.org.br/pt/artigos/cidades-como-enfrentar-as-mudancas-climaticas/

https://www.brasildefato.com.br/2024/08/16/mudanca-climatica-e-o-futuro-das-cidades-e-regioes-um-chamado-a-acao

https://resultados.tse.jus.br/oficial/app/index.html#/eleicao;e=e619;uf=rj;ufbu=rj;tipo=3;mu=60011;mubu=60011/resultados

https://www.cartacapital.com.br/politica/veja-os-resultados-das-eleicoes-para-prefeito-em-todas-as-capitais/

https://divulgacandcontas.tse.jus.br/divulga/#/home

Carta Inter-religiosa – Aliança Sagrada Pelo Clima

A Natureza como Expressão Espiritual clama pela Urgência da Ação

Nós, lideranças religiosas de diversas tradições e espiritualidades, nos unimos nesta carta para expressar nossa profunda preocupação com as sucessivas e crescentes tragédias ambientais que nosso país tem enfrentado e com as perspectivas de que sejam ainda piores no futuro próximo. O aumento das queimadas e incêndios florestais na Amazônia, Pantanal, Cerrado e Mata Atlântica está destruindo nossa biodiversidade, degradando os solos e os recursos hídricos, agravando a crise climática global, corroendo nossa economia e provocando doenças
e sofrimentos na população.

Reconhecemos o esforço que parte do governo vêm fazendo para enfrentar esses problemas e para recuperar a governança socioambiental que foi criminosamente enfraquecida durante o governo passado. Esse empenho tem produzido resultados importantes, como a expressiva redução do desmatamento na Amazônia. No entanto, a situação ambiental do país continua extremamente preocupante e requer uma maior mobilização de todos os setores estratégicos do governo e o envolvimento dos governos estaduais e municipais.

Constatamos com grande tristeza que o Câmara, Senado e Ministérios, como o das Minas e Energia, Transportes e Agricultura, continuam atrelados a uma visão de desenvolvimento do passado, e seguem defendendo a mineração em Terras Indígenas e a exploração de petróleo em lugar de priorizar a exploração do potencial de energias renováveis do país; a pavimentação da BR-319, que favorecerá a destruição de milhões de hectares da floresta
amazônica e afetará para sempre a vida de milhares de indígenas que vivem na região; a expansão da fronteira agrícola sobre o Cerrado e a Amazônia, bem como o aumento do uso de agrotóxicos extremamente perigosos para a saúde humana e para o meio ambiente.

O Brasil ocupa um lugar de protagonismo no cenário internacional. É anfitrião do G20 e da COP 30, eventos que serão decisivos para os compromissos e os impactos das políticas ambientais e climáticas sobre nossos biomas, suas populações e o futuro do planeta. Neste contexto, é inaceitável que o Brasil, um país abençoado com a maior biodiversidade do planeta, e com tal protagonismo internacional, continue a contribuir para o agravamento das mudanças climáticas e a destruição de seus ecossistemas mais preciosos.

Não é de agora que as comunidades religiosas estão comprometidas com a justiça climática e socioambiental e, portanto, nos somamos a estas vozes para avançarmos ainda mais no processo de proteção da nossa biodiversidade e dos povos originários e comunidades tradicionais que são seus principais guardiões. A natureza, em suas múltiplas formas, é um elemento central em nossas práticas espirituais e na expressão de fé de nossas comunidades.

Através da criação divina encontramos o sagrado nas florestas, nos rios, nos diversos elementos da natureza, nos animais, nas pessoas. Ao testemunharmos a destruição de ecossistemas essenciais, sentimos que não apenas a natureza está sendo violada, mas também os princípios espirituais que guiam nossas vidas. A proteção da natureza não é apenas uma questão ambiental, mas um dever espiritual e moral. Como líderes religiosos, estamos comprometidos em acolher e cuidar daqueles que sofrem as consequências dessas catástrofes, mas também em prevenir através da proteção do meio ambiente.

Pedimos, portanto, que o governo federal repense suas políticas de exploração de recursos naturais, colocando a preservação da criação divina e a proteção das vidas humanas como prioridade máxima, tais como expressos nas seguintes demandas:

● Desmatamento zero: Implementação imediata e eficaz do cumprimento do Código Florestal, com foco na proteção integral da Amazônia, do Cerrado e de todos os biomas brasileiros.

● Atualmente, há 873 blocos de petróleo e gás em concessão no país, dois terços deles em terra e um terço em áreas marítimas. Essa exploração pode dobrar, com 769 novos blocos atualmente em oferta. Reivindicamos a interrupção das concessões e de novas ofertas.

● Investimentos em Energias Renováveis: Redirecionamento dos investimentos atualmente alocados na exploração de combustíveis fósseis para o desenvolvimento de energias limpas e renováveis, que respeitem as premissas de uma transição justa e popular, em alinhamento com os compromissos climáticos internacionais do Brasil.

● Adoção de uma NDC compatível com a manutenção da elevação da temperatura média do planeta em torno dos 1,5 graus Celsius e influenciar os demais países durante a COP 30 para que façam o mesmo.

● Demarcação de Terras Indígenas, titularização de Territórios Tradicionais, regularização fundiária e reforma agrária justa, com foco na soberania alimentar. Fomento à agroecologia, valorização da produção familiar, camponesa e da pesca artesanal, além da economia indígena, garantindo geração de renda para combater a fome, pobreza e desigualdade social.

● Suspensão das operações e processos minerais ativos em terras indígenas, quilombolas e unidades de conservação de proteção integral.

Acreditamos que essas ações são necessárias e, acima de tudo, urgentes, para garantir que o Brasil possa continuar sendo um exemplo para o mundo de como desenvolvimento e sustentabilidade podem andar juntos, como guardião da vida e da biodiversidade. Contamos com o seu compromisso e liderança para transformar essas demandas em realidade.


Esse documento é assinado por:

  • Pastora Andrea Alechandre (Igreja do Evangelho Quadrangular) – Rio Branco/Acre
  • Dom Roque Paloschi (Arquidiocese de Porto Velho) – Porto Velho/Rondônia
  • Maria da Rocha (Guardiões do Bem Viver) – Lago Grande, Santarém/Pará
  • Mãe Jô Santos (Terreiro de São Jorge Tumajamacê) – São Luís/Maranhão
  • Rayana Burgos (Rede Terreiros pelo Meio Ambiente) – Recife/Pernambuco
  • Ir Maria Irene Lopes (Rede Eclesial Pan-Amazônica – REPAM)
  • Pastora Romi Bencke (Conselho Nacional de Igrejas Cristãs – CONIC)
  • Mametu Nangetu (Terreiro Manso Massumbando Quem Quem Neta)
  • Denildo Rodrigues de Moraes (Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas – CONAQ)

Confira as pessoas selecionadas para a segunda edição do Boto Fé no Clima

Ádria Anacleto Pereira Mendes
Ailton Seabra Borges
Alencar Silveira de Anchieta Guimarães Braga
Alex Rodrigo Farias Soares
Allan dos Santos Vieira
Amanda Alves Queiroga
Ana Caroline Quirino da Silva
Ana Keity da Silva
Ana Luiza de Lima Silva
Anderson Francklin Pinto de Jesus
Anderson Gabriel Ribeiro Lima
Anne Karolyne da Silva Rodrigues Carneiro
Arthur Vinicius Nascimento Viana
Beatriz Triani Cherem
Bruna Maria Crispim
Bruna Paola Castro Lima
Camila Nascimento
Camilly Goes Cardoso
Charlie Gomes da Silva
Cinthia Nascimento
Cintia Souto Reis
Cosmerina dos santos Brito
Davi Andrade Miguel
Derson Maia
Edna Carolina dos Anjos
Edson Rodrigues Cavalcante
Emerson Caetano
Felipe Gomes Garcia Marques
Fernanda Vanessa Leite do Nascimento
Fetxawewe Tapuya Guajajara Veríssimo
Gabrielle Ücker Thum
Hamangai Marcos Melo Pataxó
Holehon Santos Campos
Jerônimo pereira dos santos
Juliana da Silva Marins
Karen Cristina Sidonio Melo
Karen Emanuelen dos Santos Martins Galembeck
Karol’Linne Carvalho
Kely Cristina da Silva
Késia Miranda Nogueira
Lana Larrá Baia Amorim
Larissa Cristina Souza Barros
Letícia Damacena de Melo
Lívia Maria Vitor da Silva Sousa
Lucas da silva Alves pessoa
Luciana Carneiro Lopes da Silva
Madahyta de Nazaré dos Santos Silva
Maria Clara Salvador Vieira da Silva
Maria Rosangela da Silva Souza
Mariana Bissolate Knupp
Mateus Vinícius Batista Torres da Silva
Maycon Carreira
Mirella Moura Bastos
Muri Souza Santiago
Pamella Cristiny Carneiro da Silva
Raniere da Conceição Roseira
Raquel Piedade
Rocheli Koralewski
Romulo Moraes de Souza
Sereia Caranguejo
Shayane Fernandes Oliveira
Sueli de Araújo Azevêdo
Thais de Oliveira
Thaís Viana
Thamires Lima
Thayliana Leite Bezerra
Vanessa da Silva Santos
Wecsley Phelipe de Souza Britto
Wesley Oliveira do Nascimento
Yasmin de Oliveira Barcelos

Da mudança climática à mudança política: Solidariedade e direitos pelo Rio Grande do Sul

Nossas cidades não estão preparadas para lidar com os efeitos da emergência climática, por isso precisamos falar de adaptação climática. 

O ISER manifesta solidariedade aos atingidos pela crise climática no Rio Grande do Sul e tem atuado para ampliar o apoio às pessoas necessitadas de ajuda. Diante desse caos que assola comunidades inteiras, expressamos nossa compaixão às famílias que perderam seus entes queridos, seus lares e sua segurança. É doloroso relembrar que o que aconteceu é resultado não apenas de forças naturais, mas da negligência e omissão das autoridades competentes. Esta catástrofe ambiental nos recorda, de forma dolorosa, da urgência em adotar medidas efetivas de preservação e gestão responsável do meio ambiente e clima.

“O desastre não é natural, é político. É construído no Estado que desrespeita a legislação ambiental. O desastre é parte consciente do projeto político de governos negacionistas ou incapazes de se preocupar com a vida das pessoas e das florestas, afinal elas são indissociáveis.” – Mariana Belmont

O que é adaptação climática?

Diz respeito a um conjunto de intervenções planejadas, em diferentes áreas, para que os territórios possam lidar melhor com as consequências da emergência climática, evitando perdas materiais, de vidas e priorizando o bem estar da população.
A tragédia no Rio Grande do Sul é mais um exemplo, violento e monumental, do que tem acontecido e do muito que está por vir. Por isso, é necessário uma corajosa mudança política, para outra economia e modelo de sociedade, se quisermos algum futuro ou adiar o fim do mundo, como lembra Ailton Krenak.

Crise climática: um projeto político e econômico

Eventos climáticos extremos têm se tornado cada vez mais comuns, ao mesmo tempo em que parlamentares, governantes e outros atores políticos atacam medidas de preservação ambiental, precarizam serviços públicos de defesa civil e vendem nossas cidades e recursos naturais aos empreendimentos privados em prol de lucros ainda maiores.

A catástrofe ambiental que agora assola o Rio Grande do Sul é um exemplo de como os interesses econômicos predatórios e neoliberais estão acima dos interesses da coletividade e do cuidado com a natureza. Neste momento de dor e perda, a sociedade civil se ergue, mais uma vez, para levar cuidados básicos, comida, água e amparo àqueles que foram afetados por essa calamidade.

É preciso lembrar que tragédias anunciadas se concretizaram pelo descaso e que é urgente uma mudança radical na resposta que queremos e precisamos dar às crises climáticas e humanitárias daqui em diante. O que acontece hoje no Sul é fruto de um negacionismo científico aliado a uma má gestão pública que ignora alertas, evita planos de prevenção e flexibiliza legislações ambientais.

“Informações técnicas, dados e alertas dos cientistas estão disponíveis há bastante tempo. Informação não falta. O que falta são políticas públicas que possam minimizar os impactos desses eventos para a população porque eles continuarão a ocorrer. A mudança climática é uma realidade, não temos mais como evitar os eventos extremos.” – Suely Araújo

Como ajudar se não estou no Rio Grande do Sul?
Cozinha solidária do MTST (RS)
Pix: enchentes@apoia.se
Articulação dos Povos Indígenas da Região Sul (ArpinSul)
Pix: 00.479.105/0005-07
Central Única das Favelas (CUFA)
Pix: doacoes@cufa.org.br

Você também pode enviar itens nas agências de Correios de São Paulo, Paraná, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Santa Catarina, Bahia, Pernambuco e Distrito Federal.

Itens para doação: Água potável (prioritário), alimentos de cesta básica, material de higiene pessoal, material de limpeza seco, roupas de cama e de banho e ração para pet.

Para saber mais sobre o assunto:
É ou não é? O que é verdade (e o que não é) sobre as enchentes do Rio Grande do Sul. Greenpeace
Chuva no Sul, fogo no Norte: governo precisa agir no novo normal. Observatório do Clima.
‘NÃO TEMOS MAIS COMO EVITAR OS EVENTOS EXTREMOS’, DIZ COORDENADORA DO OBSERVATÓRIO DO CLIMA. The Intercept Brasil.
O desastre não é natural, é político. Geledes.
O que é adaptação? Glossário Confluência. Associação de Pesquisa Iyaleta.
Nota Técnica Iyaleta Nº 02 – Adaptação: desafios para transparência na governança climática no Brasil
Nota Técnica Iyaleta Nº 01 – Governança de desastres, trade-off e adaptação Norte e Nordeste do Brasil
Sumário Estratégias para Planos Nacionais de Adaptação: um caso Brasil

Por que uma COP na Amazônia?

“É importante o significado na COP. Não existe nada no Brasil mais falado no mundo do que a Amazônia. Qualquer jovem, qualquer pessoa idosa, qualquer governador, qualquer ministro de qualquer país do mundo fala da Amazônia”. A fala do presidente brasileiro Luís Inácio Lula da Silva ressalta um panorama soberano no imaginário da população mundial, a importância da floresta amazônica na regulação da estrutura ecológica do nosso planeta, um sistema vivo capaz de estocar entre 80 e 120 bilhões de toneladas de carbono. Essa mesma infraestrutura ecológica planetária é alvo constante de um sistema que literalmente o consome desenfreadamente, aniquilando ecossistemas fundamentais para a saúde do Planeta. É nesse contexto, uma reprodução local da história Humano-Natureza, que acontecerá um dos eventos mais importantes de 2025, a Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas, a famosa COP 30, especificamente na metrópole amazônica de Belém do Pará.

A Conferência das Partes (COP) sobre o clima é um evento onde todos os países membros (ou “Partes”) signatários da Convenção, se reúnem anualmente, desde 1995, por um período de duas semanas, para avaliar a situação das mudanças climáticas no planeta e propor mecanismos a fim de garantir a efetividade da Convenção sobre práticas de mitigação e adaptação aos impactos dessas mudanças no planeta. No final de 2023, um anúncio feito pelo Governo Brasileiro em conjunto com a Organização das Nações Unidas (ONU) surpreendeu o mundo, a Amazônia sediará o maior evento sobre Clima e Meio Ambiente pela 1º vez na história. Desde então, muito se especula sobre a capacidade, e até mesmo a necessidade, de receber um evento como esse em uma metrópole da Amazônia.

Belém enfrenta diversos desafios, principalmente em relação à infraestrutura, um problema comum a muitas cidades no Brasil e no mundo. Uma das grandes preocupações para a realização da COP na cidade está relacionada a essas deficiências. No entanto, os históricos movimentos socioambientais de base locais têm intensificado seus esforços para reforçar a importância de realizar o evento em Belém, destacando a necessidade de que as COPs considerem as especificidades de cada território. Nesse contexto, há um significativo movimento territorial para que a COP 30 promova um novo olhar sobre a Amazônia e suas particularidades, garantindo que a legitimidade e o potencial da região sejam reconhecidos como capazes de sediar uma conferência mundial.

Apesar das inúmeras notícias que sugerem a possibilidade de realocação da COP para outros estados, especialmente os do Sudeste — região que frequentemente hospeda grandes eventos —, tais informações parecem ter o intuito de desmobilizar e deslegitimar a capital amazônica como um território capaz de sediar a 30ª Conferência das Partes. No entanto, mesmo diante dessas incertezas, os movimentos locais mantêm-se extremamente organizados e ativos na promoção de uma forte mobilização popular. Esta mobilização parte do princípio de que uma COP na Amazônia deve contar com a participação ativa dos Amazônidas. Uma das estratégias adotadas é o fortalecimento do conhecimento da população sobre o que é a Conferência e os potenciais impactos dos eventos climáticos extremos. Além disso, há um esforço contínuo para fortalecer a comunidade local, ressaltando a importância de que a Amazônia seja representada por aqueles que verdadeiramente a conhecem.

A realização da Conferência das Partes (COP30) em uma cidade Amazônica não é apenas uma questão de logística ou de visibilidade internacional, mas uma oportunidade essencial para ampliar a potencialidade da região no diálogo global sobre mudanças climáticas. Portanto, é essencial que as vozes da Amazônia sejam priorizadas e ouvidas de forma efetiva, assegurando que sua realidade e desafios sejam corretamente compreendidos e abordados durante a conferência, e dessa forma, promovendo uma maior inclusão em discussões globais e na construção de políticas ambientais que frequentemente ocorrem distantes dos locais mais impactados.

A grande mensagem dita a cada fala amazônida sobre a COP é de que queremos uma COP que represente as Amazônias, tendo Belém como representante de sua pluralidade territorial e de seus povos, onde tenhamos espaço, reconhecimento e possamos desmistificar a visão estereotipada da região, que frequentemente nos alcança de maneira violenta e ignora nossa rica sociobiodiversidade e história de resistência.

Que essa Conferência seja um grande divisor de águas para que as instituições de escala global possam vislumbrar a importância de ampliar espaços democráticos nas regiões mais vulneráveis aos impactos das mudanças climáticas. É incontestável que a COP 30 deve ser reconhecida e defendida por todos como a COP das Amazônias e para os Amazônidas. Quem é da região já está se preparando para recebê-la, demonstrando a resiliência de um território que muitos tentaram e ainda tentam apagar, mas que continua resistente e permanecerá defendido por seus guardiões.

Por: Waleska Queiroz – Amazônida periférica, Engenheira, Socioambientalista, Ativista Climática, Presidenta da Rede Jandyras e Representante Institucional na COP das Baixadas.

Rumo à COP30: Fé no clima realiza encontro com a Rede de Juventudes

Na última segunda-feira (25/03), a Iniciativa Fé no Clima promoveu um encontro online com a Rede de Juventudes FnC. Um dos motivos do encontro foi à atualização acerca dos próximos passos da iniciativa para 2024.

Com a presença de jovens de todo o Brasil, o Fé no Clima anunciou a abertura das inscrições para a 1° turma do Boto Fé no Clima: adaptação climática e a previsão da realização de outras duas formações ainda este ano: o Boto Fé no Clima: juventudes e ação climática e o Boto Fé no Clima: preparação à COP29.

No calendário de atividades da Iniciativa, estão a incidência em dois grandes eventos da agenda de Clima: a reunião do G20, no final deste ano e a COP30, em 2025. Com inspiração na grande “Vigília pela Terra”, promovida pelo ISER durante a Rio-92, a Iniciativa aproveitou o encontro para reforçar o convite à participação da Rede na construção de uma Nova Grande Vigília pela Terra, no ano que vem, em Belém, durante a COP 30. Além disso, o Fé no Clima também tem costurado junto a sua rede de lideranças e organizações parceiras a realização de vigílias descentralizadas em preparação à vigília principal.

Dentre as falas dos presentes foi destacada a importância da manutenção da realização COP30 em Belém-PA, diante das especulações que têm sido divulgadas pela mídia a respeito de uma possível mudança parcial ou total na capital que abrigará a conferência. Além disso, foi afirmada a necessidade de novos encontros da Rede de Juventudes para construção de mobilização constante rumo à COP30

Por Sharah Luciano, assistente de projetos da Iniciativa Fé no Clima

De norte a sul – Extremos climáticos atingem milhares de pessoas no Brasil e no mundo

O ano de 2023 está sendo marcado por eventos climáticos extremos, com recordes históricos nos registros que a ciência já conseguiu detectar. 

O Serviço de Mudança Climática Copernicus (C3S), da União Europeia, informou que a temperatura média global de julho de 2023 foi de 16,95 °C, a maior observada em qualquer mês desde o início de sua medição em 1940. No caso do Brasil, a temperatura média em julho foi de 22,97 °C, o mês de julho mais quente registrado no Brasil desde 1961 pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). 

Cada meio grau (0,5C°) a mais na temperatura média do planeta corresponde a uma série de mudanças na intensidade e frequências dos eventos climáticos, como ondas de calor e de episódios de seca ou chuvas exacerbadas. 

A emissão de gases de efeito estufa produzida pela queima de combustíveis fósseis é a principal causa para esse aquecimento do planeta, seja nos oceanos ou na superfície terrestre. Esses episódios de secas e enchentes também são intensificados pelo El Niño, um fenômeno natural que ocorre em períodos de 5 a 7 anos e traz mais chuvas para a região sul e mais secas para a região norte do país. 

Segundo o relatório do INMET publicado em Setembro deste ano, as cheias dos rios da região sul e as secas nos rios da região norte já eram percebidas. 

“Observa-se que a Região Sul, notadamente as bacias dos rios Uruguai e Taquari-Antas, experimentaram ocorrências de inundações, com destaque para os eventos de cheia extraordinários observados na bacia do rio Taquari-Antas, com dezenas de perdas de vida e severos danos às áreas urbanas de vários municípios. Já na Região Norte, observa-se diversos rios à margem direita do rio Amazonas em situação de seca, com contínuo e gradual declínio de níveis d’água e impactos sobre a navegação reportados em pontos dos rios Purus, Juruá e Madeira.”  

No mês de Outubro presenciamos a pior seca do rio Negro no Amazonas que deixou milhares de pessoas sem acesso a recursos básico como a água ou a atividade de pesca, além da biodiversidade perdida como a morte de bôtos e peixes. 

No Rio Grande Sul também tivemos enchentes avassaladoras que tiveram impacto direto na vida das populações indígenas, como foi o caso de famílias do povo Guarani Mbya que tiveram que ser resgatadas pelos bombeiros e deixarem sua comunidade. 

Esse relatório do INMET já apontava para as condições de risco dessas regiões, portanto, o que falta para os governos tomarem medidas efetivas de prevenção aos desastres ambientais? 

No mesmo estudo também indica que no mês de outubro ocorre o planejamento de preparação para o período chuvoso nas regiões Sudeste, Centro-Oeste e Bahia. Como é feito esse planejamento? Como a população pode se preparar sobre como proceder e qual tipo de suporte deve receber dos governos em situações de extrema vulnerabilidade? 

Temos a ciência para nos ajudar a criar estratégias de prevenção, e temos nossa fé, que nos dá força para enfrentar os momentos de maior sofrimento. Além disso, precisamos urgentemente de políticas efetivas e governantes comprometidos para a proteção das populações mais vulneráveis diante desse cenário de emergência climática. Essa ação não é um favor, nem uma bondade, mas um direito.

Julia Rossi – Pesquisadora e redatora da equipe de comunicação do ISER” 

 

Referências 

https://revistapesquisa.fapesp.br/julho-foi-o-mes-mais-quente-da-historia-recente-e-quebrou-recordes-de-temperaturas/#:~:text=Julho%20foi%20o%20m%C3%AAs%20mais,de%20temperaturas%20%3A%20Revista%20Pesquisa%20Fapesp 

https://portal.inmet.gov.br/uploads/notastecnicas/El-Ni%C3%B1o-2023_boletim-setembro.pdf 

https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/seca-no-amazonas-rio-negro-atinge-menor-nivel-em-121-anos-com-apenas-1359-metros/ 

https://www.brasildefato.com.br/2023/09/28/enchente-atinge-aldeia-indigena-no-rio-grande-do-sul-e-comunidade-cobra-melhor-infraestrutura 

TEOLOGIA DO NAUFRÁGIO: A VOZ QUE ECOA NO PORÃO DO NAVIO

 

“Em 15 de fevereiro de 1750, o Espérance naufraga ao largo de Le Vauclin, na Martinica. Desembarcados naquela areia desconhecida, 177 náufragos do Espérance já procuram, através das fendas dos morros ainda verdejantes, as possíveis aberturas de um mundo. (FERDIAND, 2023, p.153).” 

 

É com essa citação que Malcom Ferdiand começa um dos capítulos do seu livro Uma Ecologia Decolonial (2023). Ele encontra na experiência dos corpos negros racializados à partir dá modernidade, um conceito para descrever a colonização europeia e os processos subsequentes dessa estrutura social. “A colonização europeia e as escravidões formam também um imaginário a partir do qual se pode falar de um mundo, de seus habitantes, de suas terras e de seus mares” (FERDINAD, 2023, p.154).

Ferdinad, utiliza o conceito de “Navio Negreiro” para descrever essa relação de subjugação da estrutura colonizadora em relação ao corpo escravizado que é retirado do seu lar, da sua terra, da sua cultura, dos seus laços familiares e da sua experencia religiosa para ser transformado em mera mercadoria, a ser utilizada como mão de obra do império.

 

Como fundamento, o navio negreiro contém os princípios que estruturam o mundo crioulo. Assim como o cofre de madeira no qual os hebreus conservavam as Tábuas da Lei, o navio negreiro encerra em seu seio, em seu convés inferior e em seu porão, os preceitos políticos, sociais e morais que estruturam as relações com a natureza, com a Terra e com o mundo. O principal traço desse fundamento reside numa política do desembarque. O desembarque faz, inicialmente, referência aos quatro séculos ao longo dos quais navios europeus desembarcaram, nas margens caribenhas e americanas, milhões de africanos aprisionados transformados em Negros e escravizados coloniais. (FERDIAND, 2023, p.155-156).

 

Durante mais de 4 séculos, navios europeus traficaram pessoas trazidas a força da África, legitimados pela força do cristianismo europeu com as suas missões de evangelização e catequização de outros povos. A noção de que outros povos, culturas e religiões eram inferiores aos cristãos europeus, sustentou uma noção de que os povos ameríndios e africanos precisavam serem salvos, para que suas almas não fossem condenas ao inferno. Entretanto como o próprio Ferdiand descreve: o verdadeiro inferno era ser acorrentado nos porões do navio negreiro, após ser brutalmente separado de tudo aquilo que dava razão a sua existência: religião, família e cultura. Para esse escravizado, não havia mais nenhuma esperança, a não ser a morte após um naufrago no meio do oceano atlântico. Entretanto, Ferdiand propõe que em alguns casos, a experencia do naufrago não foi a de morte e sim a possibilidade de fuga dessa estrutura colonialista, como o caso do navio Espérance. 

É possível fazer uma relação dessa noção de náufrago como possibilidade de escape, com a história do Apostolo Paulo no livro de Atos no capitulo 27. Nesse relato um dos grandes propagadores do cristianismo primitivo está sendo levado como prisioneiro até o Imperador César. Após inúmeras advertências, orientações e apelos do apostolo, sobre os perigos dessa viagem e as decisões tomadas pelo senhor do navio, acontece um náufrago e milagrosamente ninguém morre. Novamente, temos mais uma história de um náufrago que não termina em morte, mas na possibilidade de salvação a partir da sobrevivência dos prisioneiros do navio. Em ambos os casos, o navio do império romano e o navio negreiro Espérance representavam as estruturas de poder que colonizavam e subjugavam outros corpos, cerceando sua liberdade, territorialidade, cultura e religião. Mas a salvação e a possibilidade de vida, estava no porão dos navios.

Quando se pensa em uma ecologia decolonial e uma tentativa de discutir as questões climáticas a partir da religião, mais especificamente a fé cristã, é preciso pegar emprestado os conceitos e símbolos apresentados por Malcom Ferdinand. A imagem do navio negreiro como símbolo da colonização nos dá margem para imaginar o cristianismo europeu, como um navio que também precisa naufragar. Não é possível pensar uma ecoteologia cristã, a partir das estruturas que sustentaram a colonização e a utilização predatória de recursos naturais, por isso a solução precisar vir de outro lugar. “Os Negros nos porões dos navios negreiros não constituem um povo preexistente à sua insurreição, sobre o qual um dos cativos poderia dizer ao capitão “deixe meu povo ir” (FERDINAD, 2023, p. 163).

A mensagem do evangelho sempre nasce nos porões, nas catacumbas, nas periferias e principalmente, no grito que sai da boca dos corpos que historicamente são acorrentados e negados no seu direito básico de existir. Os negros, as mulheres, a comunidade LGBTI+ e os indígenas são aquelas vozes que ainda ecoam de dentro dos porões e ainda tem condições de pensar um mundo novo, a partir desse desembarque em um mundo novo após o naufrago.

“Os pobres são a verdadeira Igreja, o verdadeiro povo de Deus ainda que a sua presença no sistema religioso possa ser muito fraca. Encontram-se nos grandes santuários de romarias populares. Não se encontram nas igrejas paroquiais e muitas vezes nem sequer nas capelas. Mas Jesus sabe reconhecê-los e os integra no seu corpo como o verdadeiro povo de Deus. Jesus luta pela sua libertação no meio deles”, a afirmação é do Pe. José Comblin em um artigo publicado no livro Fome de Justiça.