
As juventudes estão ativas nas causas socioambientais
À medida que o agravamento da emergência climática avança e impacta diferentes áreas da vida, torna o senso de urgência de ação, principalmente de quem é diretamente afetado por ela, muito mais latente. É altamente perceptível que as coisas “não andam bem” e essa nova geração tem estado atenta a isto. Em 2022, a pesquisa nacional “Juventudes, Meio Ambiente e Mudanças Climáticas”, realizada pelo Em Movimento, Rede Conhecimento Social, Engajamundo e Instituto Ayíka, apontou que o meio ambiente está entre os três assuntos que mais interessam às juventudes brasileiras. Segundo a pesquisa, 81% dos jovens entrevistados concordam que as mudanças climáticas impactam na qualidade de vida e 62% afirmaram que o meio ambiente afeta a religião ou filosofia de vida deles e delas.
Essa percepção transborda para os espaços de fé
A noção de que os problemas ambientais afetam a vida das pessoas numa dimensão holística, com desdobramentos inclusive para esfera da espiritualidade ou religiosidade, é algo que já tem sido abordado pelos movimentos e organizações que trabalham com as temáticas de fé e meio ambiente há pelo menos 30 anos. No Brasil, um marco para essa interseção foi a realização da Vigília um Novo dia pela Terra. O evento inter-religioso, foi coorganizado pelo ISER e demais lideranças espirituais e religiosas em paralelo à ECO92, quando centenas de chefes de Estado se reuniram no Rio de Janeiro para tratar sobre meio ambiente e desenvolvimento. Nesses mais de 30 anos que separam 1992 dos dias atuais, a temática ambiental avançou no debate público, mas também dentro das comunidades religiosas. O Fé no Clima, iniciativa que nasce na área de Religião de Meio Ambiente do ISER, com a missão de reunir e engajar lideranças religiosas para conscientização de suas comunidades de fé no enfrentamento à crise climática, é um desses exemplos. Com o amadurecimento da Iniciativa e a consolidação das redes que se formaram em torno dela, foi possível perceber que, para além das lideranças religiosas, era importante olhar para as pessoas membros das comunidades de fé, em especial, as juventudes. Pois elas também têm interesse por “levar” não só o tema ambiental para as discussões dos seus espaços de fé, mas sob a forma de atividades e práticas que evoquem a sustentabilidade.
As formações do Fé no Clima
Se por um lado a emergência climática coloca todas as pessoas em risco, não são todos os que estão fortemente engajados em resolver este problema. Apesar das transformações do clima estarem sendo amplamente sentidas, falta, de maneira geral, uma melhor compreensão sobre a problemática e, acima de tudo, o que e como fazer. Quando olhamos mais específicamente para os espaços de fé demanda-se uma ação mais cuidadosa, pois a linguagem que requer é diferenciada: não é apenas o debate sobre os desafios ambientais, mas uma perspectiva que aponte fundamentações para o cuidado ambiental tanto científicas quanto com base na fé. Fomentar educação socioambiental e climática tem sido uma via frutífera e de conexão com esse público. Nos últimos anos o Fé no Clima tem aberto anualmente turmas regulares de formações. Nas aulas do Boto Fé no Clima: juventudes de fé e ação climática (BFC), ao longo de 2 meses e meio, os participantes aprendem sobre mudanças climáticas, a relação entre fé e meio ambiente, a partir de suas religiões/espiritualidades e comunicação e mobilização. Ao final dos processos formativos, recebem a missão de desenvolverem um projeto que relacione fé e meio ambiente, seja nas suas comunidades de fé, territórios ou para disseminação nas redes sociais. Além do BFC, foram realizadas formações com focos específicos, como o Boto Fé no Clima: adaptação climática e Boto Fé nas Águas: justiça climática e acesso a direitos.
Pequenas ações: bases para transformações maiores
Mais do que aprenderem sobre a temática, o que essas experiências têm promovido é a oportunidade de transformar a teoria em algo concreto e palpável. Por todo o Brasil, em terreiros, centros, igrejas, aldeias, comunidades, territórios e pelas redes sociais, rodas de conversa, reuniões, entrevistas, podcasts, vídeos, cineclubes, hortas e outros mais diversos formatos têm sido criados pelas juventudes que fazem o Boto Fé no Clima. Apesar de toda a diversidade no desenvolvimento dos projetos, eles têm algo em comum: falar de forma fácil, acessível e sensível sobre algo que já adentrou nas mentes e corações desses jovens: defender o meio ambiente, o clima e uma relação socioambiental equilibrada é também responsabilidade das pessoas de fé. No decorrer desses três anos, mais de 170 ações já foram realizadas nas cinco regiões do Brasil. Muito mais do que atividades pontuais, os projetos integralizados são ricas oportunidades de semear diálogos e práticas contínuas sobre a interseção entre a fé e o cuidado com a natureza. Como também alcançar mais pessoas que por outras vias não teriam acesso a esses debates. Além de criar um acervo rico de práticas que podem ser replicadas em outros momentos e contextos. E não finaliza aí, uma vez formados esses jovens passam a integrar a Rede de Juventudes do Fé no Clima.
O exemplo das vigílias
Durante o ano de 2025 as Vigílias pela Terra, eventos inter-religiosos e culturais, co-realizados pelo ISER, regionalmente, e parte do percurso para a COP30 mostraram a força e engajamento dos jovens. Em todas elas tivemos jovens da Rede engajados no processo de preparação, mobilização e participação das vigílias. O que demonstra a vivacidade dessa Rede, a profundidade dessa conexão e a disposição ativa dessas juventudes em fazer ecoar essa mensagem de cuidado e responsabilidade ambiental. Este compromisso ultrapassa as paredes físicas dos templos, mas sim se expande e soma forças com aqueles e aquelas que mesmo de outras matrizes de fé vivenciam o mesmo propósito.
O que aprendemos com isso?
Frear a emergência climática uma prioridade latente para a humanidade. Não é só a natureza que está ameaçada, é a segurança e possibilidade da existência da vida em suas infinitas formas. Portanto, uma tarefa que precisa ser compartilhada entre todos os setores, classes e gerações. Nos espaços religiosos e de fé, as juventudes têm um papel importante de promotores das pautas ambientais, bem como, de apoiarem suas lideranças nessa missão. O que tem ocorrido de forma muito potente e consistente.
Sharah Luciano, coordenadora de formações do Fé no Clima














